domingo, 1 de novembro de 2009

Dinheiro é um pedaço de papel

(bônus track)

Dinheiros publicitários governamentais


Hoje em dia é fato, não tem pra onde correr: a distribuição de verba publicitária do governo federal está ampliada para uma quantidade maior de veículos de comunicação. É como aquela questão dos investimentos na cultura do texto 2 da série “dinheiro é um pedaço de papel” aqui no blog, saca? É uma política de governo interessante. Sempre vai ter quem reclame. Normal, ninguém gosta de diminuir sua renda. Quem tá ganhando muito não quer ganhar um pouco menos. Mas acho que o caminho é por aí mesmo. E isso é só uma migalha em se pensando o que poderia ser feito para a real democratização dos meios de comunicação. Mas já é alguma coisa.

É pro governo, passa a faca.

Todo mundo cobra preços maiores quando é para o governo. Quem tem empresa, é prestador de serviço ou qualquer outra coisa que mantenha relação comercial com o Estado (em qualquer âmbito, seja municipal, estadual, federal...) sabe como isso funciona. É pra o governo? Então é tanto! E aí tome-lhe faca! Experiência numa empresa em que trabalhei mostra que o preço, quando é para a Administração Pública, pode, tranquilamente, dobrar. É claro que existem algumas peculiaridades de se contratar com o governo (as chamadas cláusulas exorbitantes são exemplo) que podem até “justificar” uma cobrança a mais. Só que, com certeza, nada justifica essa forma absurda que é.

É normal se cobrar mais de quem pode pagar mais, isso acontece comumente nesse mundão capitalista de meu Deus e eu nem acho muito absurdo não. Nem só os governos sofrem com isso – apesar deles serem as principais vítimas desse tipo de “majoração precística”. Mas da mesma forma me parece tranqüila a ideia de quem ganha mais dinheiro pagar mais impostos. O que, na prática, parece que não anda acontecendo muito né? A coisa tem que ser de vai e volta.

Transferência de renda, Zoropa...

A função dos governos é ampla e ambígua, com uma série de coisas que podem ser entendidas como contraditórias até, mas imagino que a transferência de renda seja algo fundamental. Não que eu ache que devemos fazer só programas tipo Bolsa Família (que no meio do caminho perdeu a maioria de suas formas de controle gerando algumas situações não muito legais). Mas que programas desse tipo são necessários hoje, me parece ser um fato. Até mesmo para quem tem grana, essas ações são imprescindíveis para o mantenimento de uma mínima paz social.

A sensação (falei sensação e não informação concreta baseada em estudos) que tenho da diferença entre a Europa – genericamente falando – e o Brasil pode ser resumida no seguinte: lá existe alguma dignidade (materialmente falando) do trabalhador. O cara que lava o banheiro de um restaurante lá tem condição de ter sua casinha tranquila, ter seu rango na manha, ter sua diversão, viajar e ter acesso a bens básicos de consumo. Na maioria dos países de lá não é necessária um preocupação com “a moleza que é dada pra os desocupados”, com “o dar o peixe estar tomando o lugar do ensinar a pescar” porque quem trabalha lá ganha uma grana relax.

O inferno são os outros?

Existem algumas forma de realizar licitações. Licitação todo mundo tá ligado que é a forma de o governo selecionar quem ele vai contratar pra fazer determinado serviço pra ele né? Pois então... Uma das modalidades de licitação é o chamado “Convite”. Nessa modalidade (que é para gastos menores), com objetivo de agilizar o processo, é permitida a licitação com apenas 3 fornecedores, escolhidos pela própria entidade governamental. E o que acontece na prática, me parece, é um jogo de cartas marcadas. Já vi empresa pedir para outras mandarem orçamentos acima do seu pra poder “dar cobertura” ao seu orçamento e garantir o contrato que o carinha responsável pela licitação quer fazer com ela. Bizarro? Sim, bizarro.

Aí o outro diz: “o inferno são os outros”, “por isso que rolam essas coisas, se ninguém tá vendo o cara vai e escalda mermo, mete a mão”... Ah tá... O inferno são os outros é o caralho! A gente mesmo que tem que se envergonhar (perante nós mesmos) de fazer coisas que não achamos corretas. Mas se você acha o correto é isso aí, então beleza, vá lá, se jogue, vai na fé! Agora depois não vá ficar fazendo presepada de campanha “Fora Sarney” ou coisas do gênero porque está “indignado”.

Moral (?) da história

Mas acaba-se sempre na historia de “pra que a gente vai pagar impostos direito, vai cobrar preços justos na prestação de serviços pro governo se o que sobrar vai ser carcomido pela ‘usura dessa gente (que) já virou um aleijão’”? Mexeu em dinheiro parece que a coisa desanda né? É, pode até ser... Só que aceitar isso como uma verdade absoluta é entregar os pontos, desistir antes da hora. De algum lugar a mudança tem que começar. Ou a gente faz começar algo ou então a galera que vier depois vai estar se batendo com os mesmos problemas e (o que é pior) com esses no exato mesmo ponto do que estamos vendo hoje, sem ter mudado absolutamente nada. A não ser que a gente parta pra esquema revolução e lance logo pro paredão quem não trabalhar direitinho. Aí a gente vai se livrar, na marra, de um bocado de sacana que fode o baba. É, até que não é má ideia não... Só tenho medo de que, quando o paredão for instituído, do jeito que a coisa anda, não se salve muita gente pra seguir adiante com o novo projeto de sociedade.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Rastafraude

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Quando a gente muda os costumes, às vezes, a convivência social fica comprometida. Vivo isso desde que parei de comer carnes, dei um tempo na cerveja e perdi a instiga de ouvir/assistir ao velho (e não tão bom) rock and roll. Pra completar, um pouco antes disso tudo, meu joelho teve uns pequenos problemas que me impedem temporariamente de bater babas. Aí o que me restou? Voltar a assistir futebol pra poder ter, pelo menos, o que conversar com meus amigos numa mesa de bar. E daí surgiram interessantes observações.

O preconceito, privilégios e a ignorância que existem na sociedade se manifestam, como em qualquer lugar, no futebol também. Mas além do clássico desprezo com que são tratados os times que não são do Rio ou de São Paulo, teve uma coisa que me chamou a atenção dia desses: o que seria um “rastafári” para os locutores de futebol.

Andrezinho do Inter é rastafári?!

Eu acho mais normal o cara da emissora nacional cometer certos equívocos porque o contato com as diversas culturas afro-descendentes que a gente tem aqui em Salvador é muito maior do que na maioria das outras cidades do Brasil. Embora eu ainda ache que o cara que está numa emissora nacional, transmitindo pra todo o país, deveria ser muito mais preparado que o que transmite só pra um estado. Mas enfim, é nenhuma né? Aí vem o cara, olha pra Andrezinho, um camarada que joga no Inter e diz que o cara tem o “penteado rastafári”. Rapaz... Daqui de onde eu tô vendo a tevê me parece que o cara tem o cabelo trançado, somente.

Ávini do Bahia é rastafári?!

Porra, o haole lá do eixo Rio-São Paulo é bizarro, mas um pouco mais compreensível (veja bem, eu disse compreensível, não aceitável, existe uma grande distância entre as expressões). Só que chegar aqui e ver na transmissão do jogo do Bahia (não, eu não torço pra o Bahia não mas tenho que manter meu papo de botequim atualizado) o cara falar que Ávini (que por sinal nem tá mais no Bahia, viu como eu tô informado?) estava naquele dia desfilando seu “cabelo rastafári” no jogo contra o Fortaleza foi um pouco forte demais. Foi mais um caso facilmente enquadrado na categoria “rasta-fraude”.

Você chamar o camarada que está ostentando um penteado chamado de “dreadlocks” de “rastafári” não é adequado porque entre embolar os cabelos e seguir uma filosofia-religião-modo-de-vida ou algo do gênero que tem, inclusive, um complexo código de conduta baseado em grande parte no Velho Testamento, a diferença é bem grande. Mas é um pouco mais aceitável (okay, dessa vez eu uso aceitável, tudo bem) por se tratar de uma estética que marca as pessoas adeptas do rastafarianismo (ou rastafarismo). É a parte pelo todo né? Metonímia seria a figura de linguagem utilizada, se não me engano. Só que existe uma diferença facilmente visível entre fazer “tranças” no cabelo e fazer “dreads”. Acho que em uma aula de 30 segundos sobre estética afro-descendente isso poderia ser ensinado de forma simples e que eu garanto que o camarada não iria confundir mais. Seria legal que nossos locutores soubessem diferenciar. Ou se não soubessem, pelo menos não metessem a falar, dar nomes errados aos bois.

E aí me lembro de Pierre Bourdieu que mostra, numa prosa tão clara, o poder dos brodinhos que tão lá do outro lado da telinha e os perigos disso... É, se eles tivessem lido esse francês camarada, certamente iriam ficar pelo menos com um peso na consciência de estarem falando sobre coisas que eles não dominam. Ou não né?

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Sintomas e Índices

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Sintomas

Imagem: para a juventude de hoje é mais fácil investir em quilos de maquiagem (para o mundo real) e photoshop (para o mundo virtual) do que pensar o que você tá ingerindo, como você tá levando a vida pra sua aparência física estar desse ou daquele jeito.

Trânsito: vamo fazer rodízio por placas que, a final, é mais fácil e rápido do que tentar melhoria de transporte público pra que as pessoas realmente não precisem sair de casa com carro.

Dor de cabeça: toma um remédio e pronto! Que, mané procurar motivo da dor o quê?! E olha que nesse caso, ao menos na teoria, todo mundo sabe que a dor é um alerta do corpo indicando que algo está errado.

Farsa na educação: na pós-graduação que eu fiz tinha uma galera se gabando de ter utilizado o mesmo trabalho pra 4 ou 5 matérias. Como os professores não tinham contato entre si e o trabalho, depois de corrigido era devolvido, a Universidade não ficava com nada na mão, já foi. Se fosse falta de tempo, tudo bem, vá lá, cada um com seus problemas... Mas a apresentação da situação como uma vantagem que foi tirada deixa claro que o foco não é o tempo, é o “se dar de bem”. Mas será que deixar de exercitar sua mente, deixar de desenvolver um trabalho é “se dar de bem”? É a velha lenda da Lei de Gérson (por sinal, coitado do cara, grande jogador que virou sinônimo de malandragem – no pior dos sentidos – graças a uma propaganda de cigarro).

Índices

Dia desses Daniel Paz, um camarada de muito tempo, sujeito bastante sabido, me disse: vivemos a sociedade dos índices. Não sei se ele criou essa expressão ou se algum autor renomado por aí fala disso, minha ignorância não me permite definir, mas achei de grande valia a ideia. E viajei nuns desdobramentos dela...

O crescimento dos aglomerados urbanos acabou com aquela coisa antiga de pequena vila que todo mundo se conhece e um sabe o que o outro faz, tem contato direto e sabe dizer se a pessoa faz aquilo bem ou não. Se o cara era artesão, a comunidade conhecia, sabia o que ele fazia, que tipo de trabalho desenvolvia e com qual perfeição. O outro era fruteiro, o povo sabia que ele tinha boas mangas e abacaxis, mas sabia também que o caju da roça daquele outro era melhor. O curandeiro dali da esquina era bom de curar mal de espinhela caída, mas pra dor de dente o curandeiro da vila do lado era o melhor. E assim ia. Mas quando chega ao ponto desse bolo doido que é hoje em dia, aí você precisa de índices. Vou contratar não-sei-quenzinho porque ele trabalhou com fulano. Isso é um índice, uma referência pra você chegar no que você procura. E você conhece o trabalho de não-sei-quenzinho? Não, mas se trabalhou com fulano deve ser bom. Hum... Okay. E eu vou chamar pra trabalhar comigo cicrano porque ele tem uma pós na área. E você já viu algum trabalho dele? Não, mas se fez a pós, deve ser melhor que aquele que só tem a graduação. Hum... É né? Será?

Não tô aqui dizendo que isso é um “sistema escroto”, “coisa de filadaputa”, uma “maldição do capeta” ou do “maquiavélico sistema de produção capitalista e blá blá blá” não... Só viajei que isso é um fato, não sei se tá errado ser assim não. E também nem tenho sugestões para outra forma de funcionamento. Mas que isso gera uma série de reflexos, com certeza gera. E um deles é esse: querer o diploma pelo diploma, sem se importar com o que você está aprendendo de verdade, com as habilidades que você deveria estar desenvolvendo.

Sítios na internet que vendem trabalhos de conclusão de curso não são novidade. Instituições de ensino que não cobram absolutamente nada (além da mensalidade) do aluno, também não são raras. Se a escola pública sofre de um sintoma da baixa qualidade do ensino chamado “alto índice de reprovação”, vamos ver o porquê disso ou vamos, simplesmente, acabar com o sintoma? Mais uma vez a lógica de tratar o sintoma vence e a solução é: aprova todo mundo. Pronto, assim a propaganda eleitoral pode estampar lá a melhora na educação por via do baixo índice de reprovação.

A lógica da sociedade dos índices é o que manda. A reprovação é somente um índice e o governo que tem menos, nesse caso, é o melhor. Pronto, simples assim. Se a gente tá tão distante do governo, tem uma relação tão de observador longínquo, a saída é essa: referências, índices, como qualquer um faz por aí né? E assim continuamos estimulando as administrações públicas a fazerem como nós mesmos: tratar os sintomas e esquecer as origens; cuidar da criatura ignorando o criador.

domingo, 2 de agosto de 2009

Dinheiro é um pedaço de papel

(parte 2 de 2)

Dinheiro para Cultura

E você, o que é que você achou da palestra do ministro Gilberto Gil? Velho, a coisa mais importante que Gil falou foi a seguinte: a Petrobras tem, pra investir em cultura, sozinha, mais de 10 vezes o orçamento total do Ministério da Cultura. Ou seja, não esperemos milagres do ministro.

Foi mais ou menos a mesma pergunta que me fizeram as duas equipes de reportagem que vieram me entrevistar ao fim da aula inaugural que o recém empossado Gil deu na Universidade Católica do Salvador. E foi mais ou menos a mesma resposta que eu dei (lá ele). É, se eu não estivesse usando a camisa pintada pelo grande broder Mauricio Santil – que tinha uma caricatura muito bem feita do ilustre ministro – provavelmente não teria meus 15 segundos de fama. 15 de uma emissora mais 15 de outra, já dá meio minuto. É... Mas mesmo assim, ainda não dá pra dizer que me trouxe o sucesso.



O esquema de isenção de impostos como incentivo é muito cômodo pra grandes empresas: em linhas gerais, tem seu nome associado à cultura e, de quebra, descontam tudo do imposto de renda. Ou seja, não gastam zorra nenhuma e ainda se promovem. E de onde vem esse dinheiro mesmo? Ã-rã! Do governo! Mas no final das contas o governo não apita nada na utilização desses recursos.

Gil botou pra fuder no ministério, mas tem gente muito grande interessada nessas políticas de modo que é muito difícil de mexer nisso. O cara começou a democratizar um pouquinho a distribuição de recursos e já foi um chororó do diacho. Disseram até que ele queria “acabar com o cinema nacional”. Imagine! Será que só aquela elitezinha queimada do Sol de Ipanema que tem capacidade de fazer o “cinema nacional”? Sei não viu...

Museu, exemplar típico de exclusão

Dia desses foi ao ar em uma emissora de televisão uma matéria com um morador daquela comunidade estabelecida ali do lado do Solar do Unhão, embaixo da Avenida Contorno. E aí fizeram uma coisa interessante: resolveram levá-lo pra conhecer o museu. Rapaz, que viagem né? O cara morava ali há não sei quantos anos e nunca tinha ido no museu o Solar do Unhão. E aí a repórter pergunta pra ele: mas por que o senhor nunca foi lá? E a resposta vem quente, disfarçada pela voz calma e macia do senhor: eu tinha medo de ser barrado e me perguntarem o que é que eu queria ali. É camarada, até os programas gratuitos podem ter seu preço. Se aquele senhor não queria ir lá por medo de ser barrado é porque, com certeza ele já viveu ou já viu alguém viver aquilo. E quem é que quer passar por uma situação dessas? Pois é, não tem dinheiro que pague uma humilhação... E, só pra completar, advinha a cor da pele dele?

Música e Esporte: bora colocar as coisas como elas realmente são!

Pra não descambar pra a questão étnica-racial (que é difícil, mas o foco hoje é o dinheiro) é interessante ver também como a música e o esporte são apresentados nos veículos de comunicação em geral. É bom pensar nisso pra a gente não ir na onda dos outros sem nem saber pra onde essa maré tá puxando.

“O projeto de atividade esportiva desenvolvido aqui na comunidade dá às crianças a esperança de uma mudança de vida.” Seria mais ou menos assim um enunciado genérico na televisão. Mas como é que as crianças vão encarar isso se só usam como exemplo os Adrianos “imperadores” e os Ronaldos “fenômenos”? Pode ver as imagens que vão ilustrar a matéria...

“Aqui na comunidade de não-sei-onde a esperança de mudar de vida vem do projeto de educação musical”. E daí vem aquele grande músico pra apadrinhar a escola de música e tirar foto com as crianças fazendo com que todas elas se imaginem no lugar da Ivete, do Carlito Marrom...

Esperar algo grande pode ser bom em muitas situações. Mas vamos devagar com o excesso de expectativa. Lenine numa entrevista a um apresentador muito chato de um canal pago, dia desses, quando perguntado o que é mais importante no mundo da música, o talento ou a sorte, respondeu de bate pronto com toda a sinceridade: a sorte com certeza é muito mais importante; estar no lugar certo, na hora certa, com o material certo.

O camarada Eduardo Penna sempre me lembra do episódio ocorrido no Parque de Exposições, quando o vocalista do Charlie Brown Jr, o polêmico Chorão lançou a pérola: olhai pra isso, um bocado de gente se acabou de estudar e eu que não estudei porra nenhuma tô aqui. Sendo bastante benevolente até posso tentar acreditar que o camarada poderia ter a intenção de mostrar pra a galera que todo mundo pode alcançar o que deseja, embora ele tenha sido absolutamente infeliz na colocação. O que fica parecendo é : negada, se joguem na música mermo que daqui a pouco vocês estão aqui. E a gente sabe que não é bem assim.

Outras palavras

Porque colocar o esporte ou a música como salvação da população pobre? Isso é bizarro irmãozinho. A cada um milhão que entra no futebol um só vai ser atacante da seleção! E desse um milhão no máximo mil vão viver com dignidade do esporte. Quer dizer, vão viver bem do esporte enquanto estiverem jogando. E depois? É papito, depois a idade avança e quando o cara tá lá com seus 35 anos, não tem mais clube que queira contratar ele. E aí, vai pra onde? Aposentar pelo INSS? Antes fosse...

Na música a proporção deve ser mais ou menos essa também. É preciso dar a real pra as pessoas. O foco da promoção do esporte e da música na sociedade (especialmente nas comunidades mais carentes) podia ser outro. Outras palavras, já dizia o cantor baiano. Existem outros valores muito importantes no esporte como a coletividade, o esforço pessoal, a superação dos limites... Da mesma forma a música traz uma série de benefícios sócio-coletivos e individuais – como o comprovado auxílio no desenvolvimento de outras habilidades mentais devido ao exercício neurológico que ela proporciona. O benefício mais garantido dessas paradas não é o do dinheiro não bróder! Esse aí, só se você tiver muito talento e muita, muita, muita sorte mesmo.

A fama e o sucesso

Nesse mundo atual o que as pessoas querem é a fama, não o sucesso. Com base nesse tipo de estímulo troncho o caminho é rumo ao abismo. Mostrar pra quem tá começando no esporte o exemplo de Adriano “Imperador” ou pra quem tá começando na música o exemplo de Seu Jorge (que até morador de rua já foi), creio que terminamos por reforçar a lógica de que o que vale é a fama, não o sucesso. Por que não mostrar o cara estudou pra caralho, tá lá trampando de preparador físico de futebol, era um quebrado e agora tá pagando suas contas? Por que não mostrar o camarada que ralou, estudou muito, hoje opera o som de Gal e pode criar seus filhos? Porque não tem glamour né? Por mais que o cara tenha conseguido o que queria, a regra é clara: não tem a fama! Sem fama não vale nada, não vende jornal.

Você pode até dizer: pô, mas nesses exemplos os caras nem se deram muito bem, tem que pensar mais alto mermo. Beleza, nenhuma. Mas é sempre bom falar de novo que, como diziam alguns sábios por aí, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Sucesso não tem necessariamente a ver com fama. Tem uma pá de gente que trabalha, faz o que gosta, ganha muito dinheiro e não tá aparecendo nas capas de revistas. E isso não é sucesso? Pode-se ver isso facilmente com exemplos de empresários de ramos não muito badalados pela mídia. Só que isso existe também no mundo da música e do esporte. Um exemplo fácil é o dos empresários/agentes de jogadores ou cantores. Tão lá, às margens dos palcos, e estão muito bem, obrigado.

O hiper-crescimento dos grupos de mídia em nosso país, como bem disse meu amigo Daniel Abreu esses dias, está obviamente ligado à precariedade do sistema educacional. São os mesmos interesses que unem visceralmente os dois lados dessa moeda escrota. Como se já não bastassem os meios de produção monopolizados, querem a informação monopolizada também. E essa grande máquina midiática de produzir fama (não necessariamente sucesso) trabalha a todo vapor de forma a nos fazer esquecer que o que vale é a educação. Não é pra lembrar que nessa guerra em que fomos lançados, não ter formação/informação inviabiliza a maioria absoluta das chances de escapar bem. Não é pra o povo lembrar que sem a educação – que não está sendo disponibilizada em situação minimamente razoável – a rapaziada tem mesmo é que apostar num bilhete da loteria da música ou do esporte pra ser bem sucedido.

E aí vem o pior, o golpe de misericórdia: com esse luxuoso auxilio dos meios de comunicação, nem mais o objetivo – o que é que precisamos buscar – fica claro pra o povo. Acabam convencendo uma boa parte da nossa gente de que o que vale é a fama, fazendo uma grande confusão e dizendo que o sucesso, na verdade, seria a fama. Afinal, quem garante que a fama daquele rapaz saudado pelos apresentadores dominicais com tantos louvores é mesmo sucesso? Só porque ele veio da novela das oito ele alcançou o sucesso? Mas ele acaba, ainda assim, sendo a referência máxima de “sucesso”, acaba sendo o paradigma a ser alcançado.

Sucesso, na minha modesta opinião, é o sentimento de missão cumprida. Mesmo que parcialmente. A fama eu não saberia nem definir, mas imagino ser algo praticamente inútil. E dinheiro... bem, Arnaldo Antunes já dizia né? Dinheiro é um pedaço de papel...

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O plágio é uma construção cultural

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Definir plágio na música é só contar as notas da melodia que são iguais? Acho que não. É só pegar a letra e ver se tá parecida? Acho que não também. Talvez seja um pouco mais complexo do que possa parecer. E digo, desde já: discordo completamente de todos os conceitos de plágio que já ouvi, embora eu não proponha nenhum outro para o nosso querido Brasil brasileiro, terra de samba e pandeiro.

A depender do contexto em que se insere, o conceito de plágio pode mudar ou até deixar de existir. Em cada cultura, de acordo, a princípio, com os costumes, se define (ou se ignora completamente) o que vem a ser o plágio. E aqui no nosso caso, quando a música deixa de ser apenas diversão, entretenimento ou componente de manifestações culturais costumeiras da sociedade e se transforma em produto cultural (comercializável) dentro do contexto capitalista, eis que surge a nossa ideia atual do plágio. Não é outra sua origem.

Aí vem uma contra-argumentação: ah, mas mesmo antes de a ideia do lucro se incrustar na produção musical, mesmo nas sociedades antigas, o destaque na música, assim como em outras searas, devia gerar prestígio social, de forma que poderia surgir a “necessidade” de lançar-se o conceito de propriedade sobre o que era produzido. Eu não creio nisso. Não creio porque na cultura popular existe uma coisa que eu chamaria de meritocracia instintiva. E o que viria a ser isso? É simples meu caro: o povo costuma saber quem é quem nas suas manifestações culturais, sem precisar que alguém o ensine quem merece louvores. Hoje com a mídia azucrinando a cabeça da galera, fica mais difícil, é claro. Mas numa situação menos repressiva-opressiva-escrotiva do que o que é o poder dos meios de comunicação nos grandes centros hoje, essa meritocracia existe e muito.

Mestre Pastinha, um dos mais importantes capoeiristas do período documentado dessa luta-arte afro-brasileira não dava título de mestre de capoeira a seus discípulos. Como bem disse Mestre Bola Sete em uma palestra recente, o título que Mestre Pastinha distribuía a quem ele achava devido era o de “capoeirista”. Aí, uma vez formado capoeirista, quem dava a denominação de “mestre”, era a comunidade. Era no dia a dia, ensinando e se relacionando com as pessoas a sua volta que o capoeirista ganhava seu título de Mestre.

É assim que se sucede em geral na cultura popular. É quem se destaca na dança, na música, no artesanato, no conhecimento em geral que ganha destaque, que ganha título de mestre. Pode prestar atenção. Não é necessário que chegue uma “autoridade” e diga: a partir de hoje você é mestre na construção de rabecas, por exemplo. Se o cara é “o cara” (isso não é uma citação obamiana), o povo reconhece. Quando as aglomerações urbanas não eram tão “aglomerações”, era, sem dúvida mais fácil de ver isso. Por isso hoje é mais fácil perceber esse fenômeno nas pequenas cidades e nas zonas rurais.

Outro dia um camarada integrante de um interessante grupo musical baiano (precisava dessa denominação toda? achei melhor pra não haver confusão) chamado Ministério Público, o grande André Debovais me falava da relação diferente com a música que existe em algumas comunidades jamaicanas. É uma pegada tipo assim: tem uma base gravada lá por não-sei-quem. Aí o cara pega aquela base e lança seus versos em cima. Aí outro pega a mesma base e faz outros versos em cima. Aí vem outro ainda, usa a mesma base e faz sua onda. Cada um produziu seu som, fez sua viagem. E não tem essa de “colé merma, você roubou minha música”. Porra, se ainda hoje isso acontece, difudê. Conceitos diferentes de propriedade artística e, por conseguinte, conceitos diferentes de plágio.

É essa a viagem que rolava com o rap a principio também. Pegue os discos de rap antigos pra ver. Tanto lá fora quanto aqui no Brasil. Foi lá fora que os caras se revoltaram de início com o escalde que o Beastie Boys fez pegando trecho de Deus e o mundo pra montar seu disco, só que aqui não foi diferente não. O Racionais MC’s, por exemplo, tem uma música das antigas (Homem na Estrada) que é toda em cima de “Ela Partiu” do Tim Maia Racional.

Só que aí chegou um momento em que o deus supremo do mundo moderno falou mais alto: o lucro. Ninguém pode lucrar em cima de alguma coisa que eu fiz, ora pois! Mesmo que transforme em algo diferente. Quer dizer, não pode lucrar sozinho né? Nada que uma boa conver$a não resolva...

Pois então, mas como ia dizendo, o plágio é uma convenção (ou imposição disfarçada de convenção?) cultural. Pra entender isso é só observar as músicas populares que ainda não foram cooptadas pelo contexto lucronômico. Olha lá pro samba de roda. Olha lá pro maracatu. Olha lá pro boi do maranhão. Olha a ciranda. Veja música de capoeira. Tem alguém por aí reclamando plágio de uma ladainha cantada pelo Mestre A ou B dizendo que a melodia é igual a uma ladainha que o Mestre C ou D cantava anos atrás? Nesse caso específico das ladainhas da capoeira, talvez ajude o fato da importância maior residir na mensagem que se manda. E é claro que a forma de cantar pode variar e por certo gerar um resultado final mais interessante ou não. Mas fora isso, mesmo caso um mestre resolva copiar a mensagem do outro, a tendência é, dentro do contexto, por exemplo, da Capoeira Angola na Bahia, isso ser percebido e o mestre “metido a gato-mestre” cair em descrédito na comunidade. Ainda assim, com o hiper-crescimento desse “nicho de mercado” (pra usar linguagem claramente mercadológica), a tendência pode mudar e fazer com que esse “controle de mérito” por parte da população torne-se impossível assim como torne-se possível a ampla mercantilização da música de capoeira a ponto de começarem a ser questionadas autorias e possíveis plágios.

Em resumo, a musica popular de verdade, não transformada em produto cultural comercializável, não se importa muito com o plágio. O que importa mesmo é o prazer que a música proporciona, é a função social que ela exerce, é o espaço que ela ocupa na vida, tanto na dimensão da coletividade quanto da individualidade.

Por outro lado, pra terminar de desgraçar tudo e reforçar a ideia de plágio de hoje, da necessidade de proteção ostensiva ao produto musical, a oferta atualmente é tão grande que não dá mais tempo pra digerir as músicas. As tecnologias evoluíram tanto que dá pra a gente ouvir uma quantidade de música impensável há tempos atrás. E isso gera o quê? Em geral, preferência da maioria dos envolvidos e/ou dependentes da música pela saída da música “fácil” de pegar. Tem que ser pá, pum. Ouviu, apaixonou. Afinal, a quantidade de coisa sendo produzida no mundo hoje, com o avanço da tecnologia e redução de custos de gravação, é imensa. Como se destacar nesse bolo? E aí vem a internet e, pra completar o serviço, faz com que possamos acessar um mundo inteiro de músicas, uma quantidade que nenhum ser humano pode dar conta de ouvir. E agora? De onde vou tirar meu pirão? E se eu tiver uma ideia genial aqui no Brasil? Minha chance de me destacar! Só que agora um cara pode copiar lá na Indonésia e ficar lá ganhando um dinheiro que deveria ser meu! Ele não precisa nem mais ir no meu show ou comprar meu disco pra ouvir minha música e copiar ela, quebrando meu baba. O excesso de oferta intensifica a disputa e a busca pelo hit instantâneo.

Já me disseram algumas vezes que eu sou meio lento. Vai ver que é isso mermo. Prefiro ouvir as coisas com um pouco mais de calma. Talvez por isso eu ainda compre CDs. CDs fazem você curtir mais a música, dar um saque no encarte, ouvir com um pouco mais de carinho. Não é aquele arquivo digital que você baixou e que, se, na primeira ouvida já não gostar, ele pode muito bem ter sua sentença de morte decretada. Afinal é só dar um delete né? E qualquer coisa a gente baixa de novo. É... A descartabilidade dos sons...

O melhor disco de Caetano Veloso é o Transa, de 1972. Tô cansado de ouvir isso. Mas é nenhuma, o disco é bom pra caralho mesmo. Mas ele é um exemplo típico da complexidade da definição de plágio. Tem lá um sem-fim de citações de outras coisas. Cada faixa é enxertada com uma porrada de trecho de outras músicas ou poemas. E, pelo menos na versão que eu tenho em cd, não sei como é no vinil, ele não cita nos créditos todas as coisas que ele usou ali. Por quê? Quem sabe? Quais os critérios que ele usou pra colocar ou não no encarte a origem dos fragmentos eu realmente não sei. Seria porque algumas daquelas coisas se classificariam como domínio público e não mereceriam anotação? Acho difícil ser isso. Caetano pode ser meio tirado a falar demais, mas tenho forte convicção que ele não se basearia num critério que geraria uma hierarquia subliminar dessas. Os princípios tropicalistas não poderiam ter se perdido em tão pouco tempo.

Sim, então, enfim, resumindo mais uma vez, o conceito legal de plágio tem que ser urgentemente revisto! Mesmo que eu nem saiba como ele funciona hoje. Mas, certamente, ele não é flexível e socializante como deveria ser.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Dinheiro é um pedaço de papel

(parte 1 de 2)

“Em tempos de crise o governo ainda quer contratar mais?”, disse mais ou menos assim um rapaz na tevê outro dia desses. “Serviço público paga em média não sei quantas vezes mais que iniciativa privada”, era quase assim a capa de uma revista semanal lançada por aí há pouco tempo.

Velho, vamo pensar um pouco: funcionário público tem que ganhar bem mesmo. Ganhando bem o cara fica menos suscetível a fazer merda. Quem é que hoje quer perder um emprego com estabilidade, ganhando bem? Claro que sempre vão haver os que não se contentam nunca, que sempre vão querer mais e podem se corromper. Mas isso vai ter em qualquer lugar do mundo não só na administração pública. E assim, cá entre nós, não foi o serviço público que melhorou a remuneração, foi a inicativa privada que caiu imensamente. Por que será que antigamente ninguém queria ser servidor público? Dentre outros possíveis motivos, porque sobrava emprego e todo mundo ganhava bem.

Na real, o que tem que haver em relação aos servidores públicos é fiscalização de verdade, controle da prestação do serviço deles. A Constituição, base de toda a legislação do país, já prevê avaliação para os servidores quando do fim do estágio probatório – ou seja, antes de ganhar a estabilidade – e também avaliações periódicas que podem motivar um pé na bunda. O problema é que na prática essas avaliações não são feitas. Isso sim é um erro grave. Mas o servidor tem que ter estabilidade mesmo, não pode ficar à mercê de administradores que chegam de uma hora pra outra, com seus interesses políticos e pessoais e depois de 4 anos vão partir a milhão. Não poder ser mandado embora sem uma sentença judicial da qual não se pode mais interpor recurso é muito correto. Imagine se fosse mais fácil trocar os servidores? Seria aquele esquema: entra novo administrador, muda todo o quadro. Isso ia gerar, por óbvio, um comprometimento do serviço e faria com que os servidores deixassem de obedecer a lei em primeiro lugar pra obedecer os interesses do chefe imediato.

Mas o cara que faz merda no serviço público vai ter que responder um processo judicial? Fora algumas exceções, é assim que tem que ser mesmo. Mas o judiciário não é lento, moroso? Ah, meu camarada, pra mudar isso, além de possíveis mudanças na legislação, o ponto principal é a contratação de mais servidores. Mais funcionários, mais juízes, mais gente pra botar os processos pra andar. Mas aí quando se fala nisso, voltamos ao apresentador da rede de televisão da família Marinho dizendo: “mas em tempos de crise, o governo ainda quer contratar mais?”

Existem casos em que a ignorância prevalece. Mas nesse aí não. O que existe é intenção de propagar, de forma forçada, um modelo de sociedade. Meu irmão, os destaques que são dados aos casos – verídicos e inventados – de corrupção na estrutura do Estado como um todo (executivo, judiciário ou legislativo), além de obedecerem a interesse político-partidário, visam propagar a ideia de que “assim como tá não dá certo, temos que diminuir a presença do Estado e privatizar o que puder pra ganhar em eficiência e diminuir a corrupção.” Mas vê aí como são discretamente escondidos escândalos envolvendo algumas mega-empresas. É só procurar algum veículo de comunicação minimamente independente que você se espanta. Querer empurrar guela abaixo que “o mundo privado é o paraíso” é forçar demais a barra.

E quanto ao argumento comum de que “em tempos de crise, o governo tem que gastar menos” é, no mínimo, contestável. Se o governo não bota dinheiro na economia, contratando gente, a economia não gira. Sem gente com dinheiro na rua, não tem quem compre, vai ter empresa demitindo porque vende menos, vai ter menos gente ainda comprando, mais empresas demitindo, governo arrecadando menos... Isso é básico, porra.

Mas aí, tudo bem, você é daqueles que acredita na “mão invisível” do mercado livre que vai ajustar tudo na economia de uma forma natural... Okay, agora se é assim não venha pra cá dizer que o governo tem que injetar dinheiro em empresas privadas que estão falidas! Porra, se não é pra um, não é pra outro também. Pra os tubarão tem que dar dinheiro e pras pititinga nada? Casos exemplares de apelo ao antes mal-falado Estado vide os estadunidenses (exemplo maior do “sucesso” do modelo capitalista-financeiro-neo-liberal-e-o-caralho) e suas mega-empresas de mega-sucesso que antes pagavam de gatinhas e agora tão pagando é de mendigos, mas sem nunca perder a elegância e o glamour.

Só pra concluir essa viagem, a má-fé da maioria dos meios de comunicação é tanta que eles fazem vistas grossas para um detalhe da Constituição que diz, no seu artigo 99, que “Ao Poder Judiciário é assegurada autonomia administrativa e financeira”. No afã de querer colocar na conta do executivo (leia-se no afã de queimar Lula), ignoram que dentro do orçamento da União a parcela do Judiciário vai pra lá fechada, lá dentro do Judicário é que eles resolvem como vão administrar seus recursos. Se vão contratar, o problema é deles, o dinheiro é deles. O Poder Executivo não tem (ou não teria teoricamente) que se meter em nada. Mas a forma como é colocada é pra jogar tudo na conta do bróder que eles aceitaram meio a contragosto, mas não queriam muito que estivesse ali no Palácio da Alvorada.

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Cores & Nomes


O título de doutor, assim como o título brasileiro, não vale de muita coisa.


Tínhamos um exame radiológico marcado para o nobre paciente, Mestre João Pequeno de Pastinha. Fomos para essa missão, mais uma vez, Mestre Faísca e eu. Dia de muita chuva em Salvador (quase lugar comum nessa época), chegamos atrasados. E mais uma vez teve-se que pedir-quase-implorar pra que acontecesse o atendimento. Aí veio uma coisa que me agoniou um pouco: o tratamento dado pelas pessoas da Faculdade de Odontologia da UFBa.

Enquanto esperávamos uma resposta se iam poder atender ou não o Mestre João, pudemos ver uma cena bem representativa: quase toda a equipe do atendimento se divertindo olhando o Orkut. Bate papo animado e alguns risos sonorizavam a cena que víamos através do vidro. Aí me vieram à cabeça algumas perguntas e começamos a refletir, eu e Mestre Faísca: quem são aquelas pessoas que estão nos atendendo? Quem são esses estudantes que estão ali atendendo a população de baixa renda que depende dos serviços comunitários da universidade? Quem são aquelas pessoas para as quais, hoje em dia, parece que o ato de tirar fotos se limita ao horizonte efêmero de sua utilização ou não no Orkut?



Talvez seja difícil para aquelas pessoas bonitas (para o padrão estético grande mídia) e bem alimentadas, que vivem na parte bonita de Salvador, compreenderem a realidade de um senhor de 91 anos que mora no bairro de Fazendo Coutos, bem distante dos cartões postais da cidade. Aliás, creio que, certamente, a absoluta maioria (pra não dizer a totalidade) não sabe sequer pra que lado da cidade fica a Fazenda Coutos. Ou será que eles sabem que o bairro fica antes da placa de “bem vindo” na BR-324 que, teoricamente, dá as boas-vindas a quem chega à cidade de Salvador? Nesse momento emerge, dentre outras discussões, a questão das cotas nas universidades públicas.

Numa rapidíssima analise diria que a política de cotas pode ter um milhão de falhas e é muito fácil pra qualquer um indicar pontos de fragilidade, até porque a grande imprensa cuida de nos lembrar a toda hora o lado ruim, os pontos fracos e equívocos acontecidos. Mas os pontos fortes dessa importante iniciativa devem ser percebidos e reforçados por quem trabalha em prol de uma sociedade um pouco mais justa. E dentre os pontos que merecem destaque estão a mudança de perfil na universidade – que não é o perfil estético a que me refiro, é mudança de perfil mental com a integração de outros pontos de vista, pontos de vista de quem sempre esteve excluído – e, por conseguinte, a mudança na sociedade como um todo.

A efetivação da política de cotas (para negros, para índios, para estudantes de escolas públicas...) tende a tornar a universidade mais plural e mais sensível em um primeiro momento. É muito mais fácil um estudante de baixa renda, que mora num subúrbio ou vive com maiores restrições financeiras entender as dificuldades de um senhor idoso que mora na Fazenda Coutos. A tendência é a de que ele se identifique mais com aquela situação podendo tentar ajudar um pouco mais, sendo um pouco mais flexível e humano no tratamento. O sentimento de que “poderia ser meu pai” é inegavelmente influente; a sensibilidade é tão maior quanto maior for a identificação pessoal. E é justamente contra isso que trabalha a mídia formal, contra o sentimento de identificação, jogando com imagens e informações o jogo de nos distanciarmos uns dos outros, o jogo da desumanização das camadas populares a fim de eliminar qualquer proximidade.

Cores?

Além disso, a médio e longo prazo, as cotas tendem também a acabar com o espanto que ainda gera para alguns quando falamos nos referindo ao Mestre como “Doutor João”. Por que será esse espanto? Será que ele não tem o “perfil” do que nos acostumamos a chamar de doutor?

Nomes?

Pois então, mesmo sendo Comendador da República, doutor honoris causa por duas universidades, o Doutor Comendador João Pereira dos Santos teve dificuldade para ser atendido na Universidade Federal da Bahia, universidade que, por sinal, foi uma das que deram-lhe título de doutor honoris causa. Que ruim isso não é?

É nessa hora que eu me lembro do futebol e penso: o título de campeão brasileiro de meu time mudou o que em minha vida? Acho que nada né? É... Na verdade no quesito títulos, como diria minha amiga Maria Cecília Cristo, eu tenho mesmo é o título de comunicólogo, o título de especialista em ensino da cultura afro-brasileira e o título de eleitor. Sendo que desses, o último, certamente, é o que tem sido o mais usado.

Caetano já dizia, na música que abre o Cores & Nomes, “Senhora / e agora / me diga onde vou!”



Texto-exceção à normalidade de publicações mensais devido ao acontecimento importante de hoje.