domingo, 3 de janeiro de 2010

O trator que derruba pequenos sonhos

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A cena é essa, vai vendo: um trator detonando barracas de praia na Pituba. Numa terça-feira à toa, pós feriado nacional, ano passado, 2009. Parece nada, mas pra alguém com certeza aquilo ali é uma facada no coração. Sabe-se lá em quais condições aquilo está sendo feito. Na tevê falavam que os barraqueiros que estavam sendo retirados de lá das áreas de Piatã teriam direito a um box na estação da Lapa durante a semana e iam poder colocar carrinhos na calçada em frente à praia nos fins de semana. Mas quem garante que, ao menos isso, isso vai ser mesmo respeitado?

A praia da Pituba é uma praia meio esquecida, poluída parece. Ou pelo menos é a imagem que guardo dela. Mas com certeza inda tinha gente que vivia daquilo ali, daquelas migalhas de lucro que não interessavam aos grandes investidores. Porque se interessassem, ou melhor, se interessassem já há um tempo, aquilo já tinha sido tomado. Ah, mas isso é síndrome de perseguição, é paranóia de anti-capitalista, hiponga e os caralho... O pior é que não é não.

Não precisa de muito esforço pra lembrar quem mais financia campanhas eleitorais: construtoras. E o cara que chega numa assembléia, numa câmara municipal, num congresso nacional, chega lá e pronto, esquece quem ajudou ele a chegar lá? Acho que não... Qualquer cálculo rápido e rasteiro deixa claro que a grana que se gasta em uma campanha eleitoral não tem condição de ser restituída com o salário de mandato nenhum. E aí, uma vez habitando o legislativo, os representantes do povo (do povo?) vem com leis que arrumam um jeito de dizer que aquela ocupação dos peão ali na praia é ruim, prejudicial ao meio ambiente, é esteticamente indesejável (porque essa orla tá muito feia, precisa melhorar, né?). Ou então o argumento é simplesmente de que é ilegal, já tava previsto em tal lei. Ah, se é ilegal, temos que respeitar né? Lei é lei... Lei é lei mais ou menos. A gente às vezes tende a esquecer que a lei é somente uma “convenção” estabelecida dentro da sociedade que deveria (deveria!) consolidar costumes ou interesses considerados justos pela própria sociedade. Só que as leis são feitas bem por eles mesmos, deputados, vereadores, senadores e o caralho, todos muito bem eleitos, com milhares de votos que “comprovam” o apoio popular. Todos muito bem eleitos e, na prática, presos àqueles interesses de quem financiou seus panfletinhos de campanha.

E do outro lado (do mesmo lado, na verdade) seguem os veículos de comunicação inventando muitas – e aumentando outras – mega catástrofes que viram o assunto do momento, fazendo a galera esquecer as questões realmente cruciais da sociedade. Tem jeito não, nego veio, não vou nem me estender no assunto mas sem democratização dos meios de comunicação, nada acontece. Tem que democratizar tudo, é verdade. O acesso a terra pra produzir, a educação, as oportunidades, os processos eleitorais, o acesso à justiça... Tá tudo na lista, mas, na moral, continuando os meios de comunicação de massa desse jeito, é batalha perdida. Uma emissora nacional de televisão pode acabar com as chances de eleição de qualquer candidato a qualquer cargo. Pode até, se quiser (o que não creio), incitar o povo a uma revolução. E o pior, uma revolução em qualquer direção.

Por que não tem uma zorra de um veículo de comunicação de massa mostrando (de verdade) o que tá acontecendo com os barraqueiros da cidade, como ficou (de verdade) a porra do PDDU da cidade e suas consequências? O que acontece no máximo é mostrar um barraqueiro chorando lá, sem saber o que vai fazer da vida e depois esquecer o assunto. Isso quando não partem logo pra tática de convencer todo mundo que “as barracas não tem higiene” e que “tão enfeiando nossa bela orla marítima”. Cadê mostrar (de verdade) o outro lado? O que querem os barraqueiros, que porra eles vão fazer agora... A dimensão humana tem que estar em primeiro lugar, porra! O contrato social é feito para dar aos cidadãos condições melhores do que as que eles teriam vivendo na barbárie, já dizia Rousseau. Mas desse jeito tá feia a coisa pro povo. E não dá pra ficar com esse papo furado de legalidade, que a ajuda aos necessitados não pode atropelar a lei e não-sei-o-quê-mais porque as leis são aquelas mesmas feitas por legisladores comprados por grandes capitalistas.

Ah! É um saco ficar falando essas merda toda hora. Repetição da porra. Mas pera um minuto... Eu disse que aquelas migalhas de lucro que as barracas de praia semi-abandonadas da praia da Pituba podiam produzir não interessavam os grandes investidores? E então elas estavam indo ao chão porque mesmo? Queria até entender...

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Fim versão 5

(segue a saga dos muitos fins)

No meio de tanto espaço, tinha um espaço que ele imaginava seu. O urso achava, realmente, que era dono daquele pequeno pedaço. E por pensar assim, impedia qualquer tentativa de invasão. Mas será que ele era o dono daquilo ali mesmo?

Sem fogos de artifício, mas com a bicharada toda reunida, deu-se o encontro. Olhando assim até parecem complementares: a estrela e o urso! Mas nem sempre o filme da vida revela roteiro linear.

Toda estrela é feita de calor. E o calor guarda relação indissociável com o brilho da estrela. Não dá pra imaginar que uma estrela com brilho tão forte, tão bonito, não vá exalar calor. Quando o urso trouxe pra dentro de casa a estrela avermelhada e tão vistosa, não imaginava que o seu quarto, por maior que fosse, talvez pudesse não comportar tanto calor.

Em pouco tempo a mobília do quarto começou a esquentar. De tão quente, começou a derreter. E derretia rápido como lágrimas correndo num rosto derrotado. Mas como seria possível aquilo? Aquela não era a parte do espaço que pertencia somente ao urso? Não estavam ali as coisas sobre as quais ele julgava ter total domínio? Como a estrela podia ousar-se a querer estragar tudo aquilo tão demoradamente arrumado, peça por peça, formando a única base que o urso julgava sólida dentro de todo aquele imenso espaço à sua volta?

As estrelas sempre desfilaram pelo céu. Àquela distância só se via o brilho e a beleza. Mas dentro do quarto, a estrela dona daquele brilho avermelhado tão bonito, tentava explicar ao urso que o calor provinha da mesma fonte de seu brilho, que ele tanto admirava. Enquanto isso, o urso tentava explicar à estrela uma forma de fechar os olhos, ao menos na hora de dormir. Certamente isso faria a luz (e junto com ela o calor) diminuir no quarto.

Mas não teve jeito. A solução foi a pior possível. E agora a estrela não tinha mais o abraço peludo do urso. E nem mais aquele quarto no qual tão depressa parecia se encaixar. E o urso não tinha mais a luz da estrela. E agora o seu quarto, o espaço que julgava seu, onde se erguia a sua base de sustentação no sem-fim do espaço, estava em frangalhos, derretido pela proximidade.

De novo tudo mudou. Mais duas gerações... Será que o urso mudou dessa vez?



Texto-exceção à normalidade de postagens mensais. E exceção também à recente seriedade do blog. Viajar também é legal.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Eu não sou africano nem norte-americano: ao som da viola e pandeiro sou mais o samba brasileiro.

(Candeia)

O contexto da música de Candeia citada acima, imagino eu, devia ser aquele da chegada com força da chamada “Black Music”. O disco de onde ouço essa música foi lançado originalmente em 1977. Creio que seja normal rolar uma certa reação da galera que curtia o som tipicamente brasileiro contra essa “invasão”. Ainda mais se tratando da chegada de um som que podia fazer frente ao samba no gosto da comunidade negra, porque era um som dançante, basicamente de negros estadunidenses, cheio de suingue...

Eu sou africano?

Bruno Angola, irmão da capoeira me falou algum tempo atrás do trabalho de Capoeira Angola que ele tá mantendo em Coimbra e os questionamentos dos africanos que ele conheceu por lá. Ele disse que os africanos, mesmo os angolanos, não questionam muito a denominação da capoeira como Angola não, mas viajam na onda da louvação ao continente negro. Para eles parece estranho que os brasileiros – especialmente no caso da capoeira ao que me parece – se apeguem tanto à valorização da África e dos africanos.

...

A gente sabe pouca da história dos países africanos e parece que eles também sabem pouco da nossa história. O que não é nada demais, diga-se de passagem. Acho que faz mais sentido até a gente aqui no Brasil buscar saber da história de lá do que eles saberem a história das nossas áreas brasilianas. Creio que, antropologicamente, é uma ligação ancestral do Brasil que foi deliberadamente apagada.

Pergunte a qualquer amigo seu sobre seu nome, a origem do sobrenome e tal... Se ele tiver um nome de origem européia é muito provável que ele saiba dizer pelo menos de que país vem alguns de seus antepassados. Têm alguns até que podem saber até de que região do país vem ou alguma relação “nobre” com o nome da família. Falo isso pelo meu próprio exemplo. Sei muito bem dizer de onde vem o sobrenome Galindo, já até ouvi algumas variações da história da origem. Mas vem cá, será que eu, nêgo desse jeito, sou descendente de espanhol só?

Africano de onde mermo?

Rui Barbosa, que alguns dizem por aí ter sido o maior jurista do Brasil, por certo que também fez algumas cagadas na vida. E quem não as faz, não é mesmo? A que poderíamos citar aqui foi a ideia de queimar (literalmente) os arquivos oficiais relativos ao tráfico dos escravos. Se os escravizados já eram rebatizados na hora de embarcar e chegava aqui para serem vendidos com um nome qualquer cristão (José dos Santos, João de Jesus, por exemplo), tocar fogo no que havia de registros sobre a origem dos africanos que vieram para o Brasil terminou por tornar muito mais difícil a missão de remontar a história dos afro-descendentes brasileiros. E olha que, dizem, na época o nosso grande baiano alegou que seria uma forma de “apagar a mancha da escravidão” que estava impregnada na sociedade. Será que ele pensou isso mesmo?

Você sabe com quem você está falando?!

A lógica do “você sabe com quem você está falando” eu acho que tem um pouco a ver com a situação do pensamento generalizado aqui na terra brasílis e, talvez, ajude a compreender um pouco mais a política de valorização da África, tão convictamente praticada pelos ativistas negros no país.

Se você pensar que o “você sabe com quem você está falando” (em minha observação empírica) muitas vezes recai numa política de “filiação nobre”, faz sentido pensar em uma necessidade de valorizar os africanos e a afro-descendência (afinal, a origem nobre, em geral, é identificada com representantes euro-descendentes, que ocupam, ainda, os papeis de maior destaque na sociedade). A valorização de outras origens que não a européia, que não a dos que já estão muito bem reconhecidos, é um ponto importante. É algo como mostrar que os ancestrais dos chamados negros no Brasil também tiveram sua importância. É como tentar descolar a imagem da população negra dos clichês de pobre, derrotado, serviçal, etc. É mostrar que, mesmo contra a vontade de alguns euro-descendentes, os africanos são guerreiros, capazes, inteligentes e não-acomodados. Assim como seus descendentes.

Inteligência

Felipe Beira Mar, camarada angoleiro do Vale das Pedrinhas passou uma ideia interessante dia desses. Ele narrou uma situação em que estavam sendo debatidos os conceitos de inteligência em uma aula da qual ele fazia parte quando surgiu, via colocação da professora estadunidense, uma conceito colhido em algumas regiões da África que dava conta de que a inteligência seria “a capacidade que um individuo tem de viver de forma harmoniosa em um grupo”. Fiquei chapado com isso.

Graças ao conceito que me foi apresentado nessa situação - também - reforcei minha ideia que um dos caras mais inteligentes que eu conheço chama-se Eduardo Penna. Por isso, tudo que ele fala eu presto atenção. Conversando com Penna outro dia, ele disse da onda de ser melhor racismo velado do que o racismo aberto por existir, pelo menos, a “vergonha” de se dizer racista. É a ideia da impossibilidade de criação de argumentos para defender o racismo. Okay, boa colocação. No entanto, tem uma coisinha que, pra ilustrar, eu compararia com o período da ditadura em relação às esquerdas brasileiras - embora essa definição do que é esquerda, ainda mais no Brasil, seja bem complexa.

Conexão Ditadura x Racismo

Quando existia a ditadura, o objetivo era claro: derrubar o governo militar, acabar com aquele regime de exceção. E aí ficava até mais fácil pra o cara se dizer “de esquerda”. O cara que era contra o que estava estabelecido, já podia lançar logo (ou lançavam pra cima dele) o rótulo: de esquerda. É mais ou menos o mesmo caso do racismo velado e do racismo assumido. Quando é assumido, dá pra ver, é uma coisa muito tangível, o objetivo tá ali, derrubar aquelas barreiras, aquelas leis racistas (como no caso dos EUA ou da África do Sul, por exemplo). Quando é velado, disfarçado, é mais complexo de definir medidas de combate.

África do Sul é um exemplo. Durante o apartheid o objetivo era nítido: mudança das normas legais que sustentavam o regime. E depois? Depois que derrubou o que era oficializado, aí vem a parte mais difícil: retirar das mentes aquela herança de preconceito. A relação com a ditadura é bem essa: derrubamos a ditadura! Uhu! Beleza, mas e aí? Qual é o objetivo agora? A gente luta por que causas mesmo? E aí aquela massa que tava mais ou menos conectada se divide, num processo até normal de aprofundamento das questões que, agora, se tornam mais específicas. Mas tem também um bocado de gente fica perdido, sem saber “o que era mesmo que a gente queria?”.

O primo do meu tio é mestiço, racismo não existe, comigo não tem isso*
* trecho de uma música dos Racionais MC’s chamada “Qual mentira vou acreditar?”

Aí dia desses vejo uma entrevista com Demetrio Magnoli. Poxa, o cara que era o autor de livros de minha época de colégio... Rapaz, mas que decepção... Era na mão desse cara que o colégio me lançava? Dentre uma série de argumento que ele utilizou para dizer que não existe racismo no Brasil e que as cotas são uma tentativa de racialização da sociedade, ele fez uma comparação com os representantes do povo no congresso boliviano, se bem me lembro. Ele criticava os deputados que antes se diziam trabalhadores de mina e agora se auto-proclamam índios – passando a se vestirem com roupas típicas inclusive. E dizia que era isso que o movimento negro e seus simpatizantes estavam fazendo aqui no Brasil. Hum, okay...

Velho, na minha leitura, se o cara tá optando por assumir uma identidade indígena na Bolívia, ducaralho! Se o cara tá deixando de se dizer “mestiço” no Brasil e tá se dizendo “negro”, difudê! A identidade é uma construção mesmo. O fato de antes os caras se identificarem como trabalhadores de mina e agora se auto-proclamarem índios pra mim é lindo! É um posicionamento político. Se antes eu era um moreninho e hoje eu encho a boca pra dizer que sou negro, uma série de valores vão mudando dessa forma. Você ignorar isso é ignorar que houve (e ainda há) um desprestígio (pra usar de um eufemismo) da cultura de origem afro e indígena em relação à cultura que foi (foi? será que não é mais não?) considerada “superior”, mais “evoluída”, que seria a cultura do colonizador europeu. E – como bem lembrou Kabengele Munanga numa entrevista recente na revista Fórum – o esquema é tão escroto com a cultura indígena e afro-descendente que até outras influências, como a cultura asiática por exemplo, que chegaram bem depois, são valorizadas e celebradas por aí. E seus representantes já têm seu espaço. Aí você vê, com umas culturas tão sem moral, quem é que poderia querer encontrar sua identidade no índio ou no negro? Tem que ter gente pra chagar e falar “eu sou índio mermo e é bala ser assim” ou “eu sou negro mermo e boto pra fuder, a cultura dos meus antepassados é ducaralho, não deve nada pra ninguém”.

Identidade e Autonomia

É interessante ver também que esse caminho de construção da identidade deve ser trilhado com autonomia: escolher o que é melhor para si, o que mais se conecta com suas necessidades, seus interesses; quais são os traços – dentre tantos que se misturam na formação de cada ser humano – que a pessoa quer reforçar, quer valorizar mais, quais ela acha que precisam ser valorizados. Isso é construir a identidade a partir de uma realidade concreta, real, não de uma suposição – bonita na teoria mas que paira lá pela altura do distante espaço sideral – de que “somos todos iguais”.

Morar em Salvador e ser rockeiro, por exemplo, é construção de uma identidade, é optar por uma cultura que não é a dominante mas é uma cultura com a qual acontece a identificação. É uma escolha de valores a serem reforçados, uma escolha de modos de interagir com o mundo. Ter pele e olhos claros e se definir como negro é fazer uma escolha identitária. Infelizmente tem uma galera que é levada pela maré mesmo, deixa que outros façam as escolhas por eles ou que até busca vantagens, quaisquer que sejam, nessas escolhas. Mas como diz o povo,“camarão que dorme a onda leva”.

Fim de papo

No final das contas somos todos brasileiros mesmo. Nem norte-americanos (estadunidenses), nem africanos. Mas a valorização da origem africana, a louvação à Mãe África vem de um contexto que, sem muito esforço, quem vive pode compreender. Não devemos esquecer nossas origens, política, sociológica ou antropologicamente escolhidas! Negritude é uma escolha de valorização de uma origem, não é um fenótipo de ter cabelo assim ou nariz assado. É escolha mesmo.

E eu? Eu, como diria Gerônimo...

Eu sou negão!

Imanouamiri imanoua miri roraima
Imanoua miri roraima
Ê iquei é macuchi muita onda

E aí chegaram os negros
Com toda a sua cultura
Com toda sua história
Com toda tradição
Com toda sua religião a ser mutilada,
A ser maltratada pelos heróis anônimos da história

Estamos aqui e sobrevivemos
No dum dum dum
O negão vai cantando assim

Pega a rua Chile
Desce a ladeira
Vai da praça Castro Alves
À praça da Sé

Fazendo seu debochi chi
Transando o corpo com seu ti ti ti ti
Fazendo seu debochi chi chi chi

E o negão assumiu o microfone
E na beira da multidão
Em cima do caminhão, ele fala:

Alô rapaziada do bloco
Esse é o nosso som
A nossa levada
A nossa cultura
Segura!

Eu sou negão
Eu sou negão
Meu coração é a liberdade
É a liberdade

Sou do Curuzu ilê
Sou do Curuzu
Igualdade na cor essa é a minha verdade
Igualdade na cor essa é a minha verdade

Anori capoi herem hê
Anori cauamé herem hê
Anori tuxaua herem hê
É cara cara nã he rem hê
É harem caraiva herem hê
É cara cara nã
Ê iquei é macuchi muita onda

(letra de Gerônimo retirada do encarte do disco de Mariella Santiago)




P.S.: Não sei porque toda vez que eu escrevo eu viajo que ainda tinha muita coisa pra colocar no texto... O fim de papo nunca é o fim mesmo... Mas sei que a net não é o melhor lugar pra expor textos longos. Acho que um dia vou escrever um livro de umas mil páginas. hehehehehe

domingo, 1 de novembro de 2009

Dinheiro é um pedaço de papel

(bônus track)

Dinheiros publicitários governamentais


Hoje em dia é fato, não tem pra onde correr: a distribuição de verba publicitária do governo federal está ampliada para uma quantidade maior de veículos de comunicação. É como aquela questão dos investimentos na cultura do texto 2 da série “dinheiro é um pedaço de papel” aqui no blog, saca? É uma política de governo interessante. Sempre vai ter quem reclame. Normal, ninguém gosta de diminuir sua renda. Quem tá ganhando muito não quer ganhar um pouco menos. Mas acho que o caminho é por aí mesmo. E isso é só uma migalha em se pensando o que poderia ser feito para a real democratização dos meios de comunicação. Mas já é alguma coisa.

É pro governo, passa a faca.

Todo mundo cobra preços maiores quando é para o governo. Quem tem empresa, é prestador de serviço ou qualquer outra coisa que mantenha relação comercial com o Estado (em qualquer âmbito, seja municipal, estadual, federal...) sabe como isso funciona. É pra o governo? Então é tanto! E aí tome-lhe faca! Experiência numa empresa em que trabalhei mostra que o preço, quando é para a Administração Pública, pode, tranquilamente, dobrar. É claro que existem algumas peculiaridades de se contratar com o governo (as chamadas cláusulas exorbitantes são exemplo) que podem até “justificar” uma cobrança a mais. Só que, com certeza, nada justifica essa forma absurda que é.

É normal se cobrar mais de quem pode pagar mais, isso acontece comumente nesse mundão capitalista de meu Deus e eu nem acho muito absurdo não. Nem só os governos sofrem com isso – apesar deles serem as principais vítimas desse tipo de “majoração precística”. Mas da mesma forma me parece tranqüila a ideia de quem ganha mais dinheiro pagar mais impostos. O que, na prática, parece que não anda acontecendo muito né? A coisa tem que ser de vai e volta.

Transferência de renda, Zoropa...

A função dos governos é ampla e ambígua, com uma série de coisas que podem ser entendidas como contraditórias até, mas imagino que a transferência de renda seja algo fundamental. Não que eu ache que devemos fazer só programas tipo Bolsa Família (que no meio do caminho perdeu a maioria de suas formas de controle gerando algumas situações não muito legais). Mas que programas desse tipo são necessários hoje, me parece ser um fato. Até mesmo para quem tem grana, essas ações são imprescindíveis para o mantenimento de uma mínima paz social.

A sensação (falei sensação e não informação concreta baseada em estudos) que tenho da diferença entre a Europa – genericamente falando – e o Brasil pode ser resumida no seguinte: lá existe alguma dignidade (materialmente falando) do trabalhador. O cara que lava o banheiro de um restaurante lá tem condição de ter sua casinha tranquila, ter seu rango na manha, ter sua diversão, viajar e ter acesso a bens básicos de consumo. Na maioria dos países de lá não é necessária um preocupação com “a moleza que é dada pra os desocupados”, com “o dar o peixe estar tomando o lugar do ensinar a pescar” porque quem trabalha lá ganha uma grana relax.

O inferno são os outros?

Existem algumas forma de realizar licitações. Licitação todo mundo tá ligado que é a forma de o governo selecionar quem ele vai contratar pra fazer determinado serviço pra ele né? Pois então... Uma das modalidades de licitação é o chamado “Convite”. Nessa modalidade (que é para gastos menores), com objetivo de agilizar o processo, é permitida a licitação com apenas 3 fornecedores, escolhidos pela própria entidade governamental. E o que acontece na prática, me parece, é um jogo de cartas marcadas. Já vi empresa pedir para outras mandarem orçamentos acima do seu pra poder “dar cobertura” ao seu orçamento e garantir o contrato que o carinha responsável pela licitação quer fazer com ela. Bizarro? Sim, bizarro.

Aí o outro diz: “o inferno são os outros”, “por isso que rolam essas coisas, se ninguém tá vendo o cara vai e escalda mermo, mete a mão”... Ah tá... O inferno são os outros é o caralho! A gente mesmo que tem que se envergonhar (perante nós mesmos) de fazer coisas que não achamos corretas. Mas se você acha o correto é isso aí, então beleza, vá lá, se jogue, vai na fé! Agora depois não vá ficar fazendo presepada de campanha “Fora Sarney” ou coisas do gênero porque está “indignado”.

Moral (?) da história

Mas acaba-se sempre na historia de “pra que a gente vai pagar impostos direito, vai cobrar preços justos na prestação de serviços pro governo se o que sobrar vai ser carcomido pela ‘usura dessa gente (que) já virou um aleijão’”? Mexeu em dinheiro parece que a coisa desanda né? É, pode até ser... Só que aceitar isso como uma verdade absoluta é entregar os pontos, desistir antes da hora. De algum lugar a mudança tem que começar. Ou a gente faz começar algo ou então a galera que vier depois vai estar se batendo com os mesmos problemas e (o que é pior) com esses no exato mesmo ponto do que estamos vendo hoje, sem ter mudado absolutamente nada. A não ser que a gente parta pra esquema revolução e lance logo pro paredão quem não trabalhar direitinho. Aí a gente vai se livrar, na marra, de um bocado de sacana que fode o baba. É, até que não é má ideia não... Só tenho medo de que, quando o paredão for instituído, do jeito que a coisa anda, não se salve muita gente pra seguir adiante com o novo projeto de sociedade.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Rastafraude

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Quando a gente muda os costumes, às vezes, a convivência social fica comprometida. Vivo isso desde que parei de comer carnes, dei um tempo na cerveja e perdi a instiga de ouvir/assistir ao velho (e não tão bom) rock and roll. Pra completar, um pouco antes disso tudo, meu joelho teve uns pequenos problemas que me impedem temporariamente de bater babas. Aí o que me restou? Voltar a assistir futebol pra poder ter, pelo menos, o que conversar com meus amigos numa mesa de bar. E daí surgiram interessantes observações.

O preconceito, privilégios e a ignorância que existem na sociedade se manifestam, como em qualquer lugar, no futebol também. Mas além do clássico desprezo com que são tratados os times que não são do Rio ou de São Paulo, teve uma coisa que me chamou a atenção dia desses: o que seria um “rastafári” para os locutores de futebol.

Andrezinho do Inter é rastafári?!

Eu acho mais normal o cara da emissora nacional cometer certos equívocos porque o contato com as diversas culturas afro-descendentes que a gente tem aqui em Salvador é muito maior do que na maioria das outras cidades do Brasil. Embora eu ainda ache que o cara que está numa emissora nacional, transmitindo pra todo o país, deveria ser muito mais preparado que o que transmite só pra um estado. Mas enfim, é nenhuma né? Aí vem o cara, olha pra Andrezinho, um camarada que joga no Inter e diz que o cara tem o “penteado rastafári”. Rapaz... Daqui de onde eu tô vendo a tevê me parece que o cara tem o cabelo trançado, somente.

Ávini do Bahia é rastafári?!

Porra, o haole lá do eixo Rio-São Paulo é bizarro, mas um pouco mais compreensível (veja bem, eu disse compreensível, não aceitável, existe uma grande distância entre as expressões). Só que chegar aqui e ver na transmissão do jogo do Bahia (não, eu não torço pra o Bahia não mas tenho que manter meu papo de botequim atualizado) o cara falar que Ávini (que por sinal nem tá mais no Bahia, viu como eu tô informado?) estava naquele dia desfilando seu “cabelo rastafári” no jogo contra o Fortaleza foi um pouco forte demais. Foi mais um caso facilmente enquadrado na categoria “rasta-fraude”.

Você chamar o camarada que está ostentando um penteado chamado de “dreadlocks” de “rastafári” não é adequado porque entre embolar os cabelos e seguir uma filosofia-religião-modo-de-vida ou algo do gênero que tem, inclusive, um complexo código de conduta baseado em grande parte no Velho Testamento, a diferença é bem grande. Mas é um pouco mais aceitável (okay, dessa vez eu uso aceitável, tudo bem) por se tratar de uma estética que marca as pessoas adeptas do rastafarianismo (ou rastafarismo). É a parte pelo todo né? Metonímia seria a figura de linguagem utilizada, se não me engano. Só que existe uma diferença facilmente visível entre fazer “tranças” no cabelo e fazer “dreads”. Acho que em uma aula de 30 segundos sobre estética afro-descendente isso poderia ser ensinado de forma simples e que eu garanto que o camarada não iria confundir mais. Seria legal que nossos locutores soubessem diferenciar. Ou se não soubessem, pelo menos não metessem a falar, dar nomes errados aos bois.

E aí me lembro de Pierre Bourdieu que mostra, numa prosa tão clara, o poder dos brodinhos que tão lá do outro lado da telinha e os perigos disso... É, se eles tivessem lido esse francês camarada, certamente iriam ficar pelo menos com um peso na consciência de estarem falando sobre coisas que eles não dominam. Ou não né?

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Sintomas e Índices

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Sintomas

Imagem: para a juventude de hoje é mais fácil investir em quilos de maquiagem (para o mundo real) e photoshop (para o mundo virtual) do que pensar o que você tá ingerindo, como você tá levando a vida pra sua aparência física estar desse ou daquele jeito.

Trânsito: vamo fazer rodízio por placas que, a final, é mais fácil e rápido do que tentar melhoria de transporte público pra que as pessoas realmente não precisem sair de casa com carro.

Dor de cabeça: toma um remédio e pronto! Que, mané procurar motivo da dor o quê?! E olha que nesse caso, ao menos na teoria, todo mundo sabe que a dor é um alerta do corpo indicando que algo está errado.

Farsa na educação: na pós-graduação que eu fiz tinha uma galera se gabando de ter utilizado o mesmo trabalho pra 4 ou 5 matérias. Como os professores não tinham contato entre si e o trabalho, depois de corrigido era devolvido, a Universidade não ficava com nada na mão, já foi. Se fosse falta de tempo, tudo bem, vá lá, cada um com seus problemas... Mas a apresentação da situação como uma vantagem que foi tirada deixa claro que o foco não é o tempo, é o “se dar de bem”. Mas será que deixar de exercitar sua mente, deixar de desenvolver um trabalho é “se dar de bem”? É a velha lenda da Lei de Gérson (por sinal, coitado do cara, grande jogador que virou sinônimo de malandragem – no pior dos sentidos – graças a uma propaganda de cigarro).

Índices

Dia desses Daniel Paz, um camarada de muito tempo, sujeito bastante sabido, me disse: vivemos a sociedade dos índices. Não sei se ele criou essa expressão ou se algum autor renomado por aí fala disso, minha ignorância não me permite definir, mas achei de grande valia a ideia. E viajei nuns desdobramentos dela...

O crescimento dos aglomerados urbanos acabou com aquela coisa antiga de pequena vila que todo mundo se conhece e um sabe o que o outro faz, tem contato direto e sabe dizer se a pessoa faz aquilo bem ou não. Se o cara era artesão, a comunidade conhecia, sabia o que ele fazia, que tipo de trabalho desenvolvia e com qual perfeição. O outro era fruteiro, o povo sabia que ele tinha boas mangas e abacaxis, mas sabia também que o caju da roça daquele outro era melhor. O curandeiro dali da esquina era bom de curar mal de espinhela caída, mas pra dor de dente o curandeiro da vila do lado era o melhor. E assim ia. Mas quando chega ao ponto desse bolo doido que é hoje em dia, aí você precisa de índices. Vou contratar não-sei-quenzinho porque ele trabalhou com fulano. Isso é um índice, uma referência pra você chegar no que você procura. E você conhece o trabalho de não-sei-quenzinho? Não, mas se trabalhou com fulano deve ser bom. Hum... Okay. E eu vou chamar pra trabalhar comigo cicrano porque ele tem uma pós na área. E você já viu algum trabalho dele? Não, mas se fez a pós, deve ser melhor que aquele que só tem a graduação. Hum... É né? Será?

Não tô aqui dizendo que isso é um “sistema escroto”, “coisa de filadaputa”, uma “maldição do capeta” ou do “maquiavélico sistema de produção capitalista e blá blá blá” não... Só viajei que isso é um fato, não sei se tá errado ser assim não. E também nem tenho sugestões para outra forma de funcionamento. Mas que isso gera uma série de reflexos, com certeza gera. E um deles é esse: querer o diploma pelo diploma, sem se importar com o que você está aprendendo de verdade, com as habilidades que você deveria estar desenvolvendo.

Sítios na internet que vendem trabalhos de conclusão de curso não são novidade. Instituições de ensino que não cobram absolutamente nada (além da mensalidade) do aluno, também não são raras. Se a escola pública sofre de um sintoma da baixa qualidade do ensino chamado “alto índice de reprovação”, vamos ver o porquê disso ou vamos, simplesmente, acabar com o sintoma? Mais uma vez a lógica de tratar o sintoma vence e a solução é: aprova todo mundo. Pronto, assim a propaganda eleitoral pode estampar lá a melhora na educação por via do baixo índice de reprovação.

A lógica da sociedade dos índices é o que manda. A reprovação é somente um índice e o governo que tem menos, nesse caso, é o melhor. Pronto, simples assim. Se a gente tá tão distante do governo, tem uma relação tão de observador longínquo, a saída é essa: referências, índices, como qualquer um faz por aí né? E assim continuamos estimulando as administrações públicas a fazerem como nós mesmos: tratar os sintomas e esquecer as origens; cuidar da criatura ignorando o criador.

domingo, 2 de agosto de 2009

Dinheiro é um pedaço de papel

(parte 2 de 2)

Dinheiro para Cultura

E você, o que é que você achou da palestra do ministro Gilberto Gil? Velho, a coisa mais importante que Gil falou foi a seguinte: a Petrobras tem, pra investir em cultura, sozinha, mais de 10 vezes o orçamento total do Ministério da Cultura. Ou seja, não esperemos milagres do ministro.

Foi mais ou menos a mesma pergunta que me fizeram as duas equipes de reportagem que vieram me entrevistar ao fim da aula inaugural que o recém empossado Gil deu na Universidade Católica do Salvador. E foi mais ou menos a mesma resposta que eu dei (lá ele). É, se eu não estivesse usando a camisa pintada pelo grande broder Mauricio Santil – que tinha uma caricatura muito bem feita do ilustre ministro – provavelmente não teria meus 15 segundos de fama. 15 de uma emissora mais 15 de outra, já dá meio minuto. É... Mas mesmo assim, ainda não dá pra dizer que me trouxe o sucesso.



O esquema de isenção de impostos como incentivo é muito cômodo pra grandes empresas: em linhas gerais, tem seu nome associado à cultura e, de quebra, descontam tudo do imposto de renda. Ou seja, não gastam zorra nenhuma e ainda se promovem. E de onde vem esse dinheiro mesmo? Ã-rã! Do governo! Mas no final das contas o governo não apita nada na utilização desses recursos.

Gil botou pra fuder no ministério, mas tem gente muito grande interessada nessas políticas de modo que é muito difícil de mexer nisso. O cara começou a democratizar um pouquinho a distribuição de recursos e já foi um chororó do diacho. Disseram até que ele queria “acabar com o cinema nacional”. Imagine! Será que só aquela elitezinha queimada do Sol de Ipanema que tem capacidade de fazer o “cinema nacional”? Sei não viu...

Museu, exemplar típico de exclusão

Dia desses foi ao ar em uma emissora de televisão uma matéria com um morador daquela comunidade estabelecida ali do lado do Solar do Unhão, embaixo da Avenida Contorno. E aí fizeram uma coisa interessante: resolveram levá-lo pra conhecer o museu. Rapaz, que viagem né? O cara morava ali há não sei quantos anos e nunca tinha ido no museu o Solar do Unhão. E aí a repórter pergunta pra ele: mas por que o senhor nunca foi lá? E a resposta vem quente, disfarçada pela voz calma e macia do senhor: eu tinha medo de ser barrado e me perguntarem o que é que eu queria ali. É camarada, até os programas gratuitos podem ter seu preço. Se aquele senhor não queria ir lá por medo de ser barrado é porque, com certeza ele já viveu ou já viu alguém viver aquilo. E quem é que quer passar por uma situação dessas? Pois é, não tem dinheiro que pague uma humilhação... E, só pra completar, advinha a cor da pele dele?

Música e Esporte: bora colocar as coisas como elas realmente são!

Pra não descambar pra a questão étnica-racial (que é difícil, mas o foco hoje é o dinheiro) é interessante ver também como a música e o esporte são apresentados nos veículos de comunicação em geral. É bom pensar nisso pra a gente não ir na onda dos outros sem nem saber pra onde essa maré tá puxando.

“O projeto de atividade esportiva desenvolvido aqui na comunidade dá às crianças a esperança de uma mudança de vida.” Seria mais ou menos assim um enunciado genérico na televisão. Mas como é que as crianças vão encarar isso se só usam como exemplo os Adrianos “imperadores” e os Ronaldos “fenômenos”? Pode ver as imagens que vão ilustrar a matéria...

“Aqui na comunidade de não-sei-onde a esperança de mudar de vida vem do projeto de educação musical”. E daí vem aquele grande músico pra apadrinhar a escola de música e tirar foto com as crianças fazendo com que todas elas se imaginem no lugar da Ivete, do Carlito Marrom...

Esperar algo grande pode ser bom em muitas situações. Mas vamos devagar com o excesso de expectativa. Lenine numa entrevista a um apresentador muito chato de um canal pago, dia desses, quando perguntado o que é mais importante no mundo da música, o talento ou a sorte, respondeu de bate pronto com toda a sinceridade: a sorte com certeza é muito mais importante; estar no lugar certo, na hora certa, com o material certo.

O camarada Eduardo Penna sempre me lembra do episódio ocorrido no Parque de Exposições, quando o vocalista do Charlie Brown Jr, o polêmico Chorão lançou a pérola: olhai pra isso, um bocado de gente se acabou de estudar e eu que não estudei porra nenhuma tô aqui. Sendo bastante benevolente até posso tentar acreditar que o camarada poderia ter a intenção de mostrar pra a galera que todo mundo pode alcançar o que deseja, embora ele tenha sido absolutamente infeliz na colocação. O que fica parecendo é : negada, se joguem na música mermo que daqui a pouco vocês estão aqui. E a gente sabe que não é bem assim.

Outras palavras

Porque colocar o esporte ou a música como salvação da população pobre? Isso é bizarro irmãozinho. A cada um milhão que entra no futebol um só vai ser atacante da seleção! E desse um milhão no máximo mil vão viver com dignidade do esporte. Quer dizer, vão viver bem do esporte enquanto estiverem jogando. E depois? É papito, depois a idade avança e quando o cara tá lá com seus 35 anos, não tem mais clube que queira contratar ele. E aí, vai pra onde? Aposentar pelo INSS? Antes fosse...

Na música a proporção deve ser mais ou menos essa também. É preciso dar a real pra as pessoas. O foco da promoção do esporte e da música na sociedade (especialmente nas comunidades mais carentes) podia ser outro. Outras palavras, já dizia o cantor baiano. Existem outros valores muito importantes no esporte como a coletividade, o esforço pessoal, a superação dos limites... Da mesma forma a música traz uma série de benefícios sócio-coletivos e individuais – como o comprovado auxílio no desenvolvimento de outras habilidades mentais devido ao exercício neurológico que ela proporciona. O benefício mais garantido dessas paradas não é o do dinheiro não bróder! Esse aí, só se você tiver muito talento e muita, muita, muita sorte mesmo.

A fama e o sucesso

Nesse mundo atual o que as pessoas querem é a fama, não o sucesso. Com base nesse tipo de estímulo troncho o caminho é rumo ao abismo. Mostrar pra quem tá começando no esporte o exemplo de Adriano “Imperador” ou pra quem tá começando na música o exemplo de Seu Jorge (que até morador de rua já foi), creio que terminamos por reforçar a lógica de que o que vale é a fama, não o sucesso. Por que não mostrar o cara estudou pra caralho, tá lá trampando de preparador físico de futebol, era um quebrado e agora tá pagando suas contas? Por que não mostrar o camarada que ralou, estudou muito, hoje opera o som de Gal e pode criar seus filhos? Porque não tem glamour né? Por mais que o cara tenha conseguido o que queria, a regra é clara: não tem a fama! Sem fama não vale nada, não vende jornal.

Você pode até dizer: pô, mas nesses exemplos os caras nem se deram muito bem, tem que pensar mais alto mermo. Beleza, nenhuma. Mas é sempre bom falar de novo que, como diziam alguns sábios por aí, uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. Sucesso não tem necessariamente a ver com fama. Tem uma pá de gente que trabalha, faz o que gosta, ganha muito dinheiro e não tá aparecendo nas capas de revistas. E isso não é sucesso? Pode-se ver isso facilmente com exemplos de empresários de ramos não muito badalados pela mídia. Só que isso existe também no mundo da música e do esporte. Um exemplo fácil é o dos empresários/agentes de jogadores ou cantores. Tão lá, às margens dos palcos, e estão muito bem, obrigado.

O hiper-crescimento dos grupos de mídia em nosso país, como bem disse meu amigo Daniel Abreu esses dias, está obviamente ligado à precariedade do sistema educacional. São os mesmos interesses que unem visceralmente os dois lados dessa moeda escrota. Como se já não bastassem os meios de produção monopolizados, querem a informação monopolizada também. E essa grande máquina midiática de produzir fama (não necessariamente sucesso) trabalha a todo vapor de forma a nos fazer esquecer que o que vale é a educação. Não é pra lembrar que nessa guerra em que fomos lançados, não ter formação/informação inviabiliza a maioria absoluta das chances de escapar bem. Não é pra o povo lembrar que sem a educação – que não está sendo disponibilizada em situação minimamente razoável – a rapaziada tem mesmo é que apostar num bilhete da loteria da música ou do esporte pra ser bem sucedido.

E aí vem o pior, o golpe de misericórdia: com esse luxuoso auxilio dos meios de comunicação, nem mais o objetivo – o que é que precisamos buscar – fica claro pra o povo. Acabam convencendo uma boa parte da nossa gente de que o que vale é a fama, fazendo uma grande confusão e dizendo que o sucesso, na verdade, seria a fama. Afinal, quem garante que a fama daquele rapaz saudado pelos apresentadores dominicais com tantos louvores é mesmo sucesso? Só porque ele veio da novela das oito ele alcançou o sucesso? Mas ele acaba, ainda assim, sendo a referência máxima de “sucesso”, acaba sendo o paradigma a ser alcançado.

Sucesso, na minha modesta opinião, é o sentimento de missão cumprida. Mesmo que parcialmente. A fama eu não saberia nem definir, mas imagino ser algo praticamente inútil. E dinheiro... bem, Arnaldo Antunes já dizia né? Dinheiro é um pedaço de papel...