sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sobretudo

1. Sobre o abandono e os seus momentos.

Lembro de um episódio da Família Dinossauro em que o avô da família ia ser jogado nos poços de piche. Era um costume antigo que as famílias de dinossauros faziam desde a época em que viviam errantes pelo mundo, por se tratar da hora ideal para se livrar do dinossauro mais velho e mais lento, que colocava em risco a comunidade nos seus deslocamentos de fuga de predadores. Fugindo da interessante questão de como eles reproduziam um costume sem perceberem que já não fazia mais sentido no contexto presente, tem uma viagem ali que é a hora do abandono. Isso era a hora certa do abandono pra eles. Abandonar o indivíduo (mesmo que amado e pertencente ao núcleo familiar).

Mas e aí, existe alguma hora ideal para um abandono? Aí vale também pensar que, nesse caso pré histórico, os habitantes da pangeia podiam ter um interesse coletivo em se livrar daquele elemento, naquele momento. Mas e para o elemento jogado à própria sorte (azar) dos poços de piche? Será que para ele, no momento mais fragilizado de sua existência, seria o momento ideal de ser abandonado?

2. Sobre a necessidade de esquecer.


3. Sobre a desconexão e sua desnecessidade.

Só pra manter a coerência de perceber em mim mesmo um bocado de incoerência, concordo 100% com Nietzsche. Só que nem sempre. Tem gente, por exemplo, que viaja que é necessário o momento desconexão total para viabilizar o fim de um relacionamento. Eu discordo disso, desde sempre. Mas tento respeitar, desde sempre, embora em alguns contextos pretéritos eu tenha falhado miseravelmente nessa tentativa.

4. Sobre o amor.

Esses dias perguntei pra uma amiga o que ela acreditava ser o amor. Ela me apresentou um conceito psicanalítico, pra depois me apresentar um conceito lindo que dizia no meio que “é aconchego, é frio na barriga”. Rapaz, acho que não precisa dizer mais nada. É porque o baguio é tudo mesmo. É o bom e o ruim junto, é tão amplo que é foda de dizer. Mas eu, apesar de proveniente da linhagem gilbertogilista, pacificadora e conciliadora, não belicista, filho-de-gandhyano, ainda tenho em meu bojo um bocado de caetanovelosisses também que me fazem querer dar pitaco sobre tudo, inclusive sobre o que eu não tenho embasamento e, em alguns (vários) momento, quando a caetanisse me ataca forte, acho que a minha verdade é um pouquinho mais verdadeira que a verdade do outro (embora eu nunca vá dizer isso assim, na cara do outro). Hahahahahahaha!

Eu não saberia definir o que é o amor pra mim. Mas pra não complicar muito, vou pensar só no amor daquele tipo que surge (em geral) em relação a (em geral) uma pessoa que (em geral) não é de sua família e que faz querer (em geral) estar com a pessoa em muitos momentos, tipo dividir a vida em algo semelhante ao que outrora foi formalizado sob a alcunha de casamento. Certo, forçei a barra só pra tentar delimitar o tema. É só sobre esse amor aí. Mas mesmo assim eu ainda não saberia definir o que é o amor em minha opinião/sentimento. Ainda assim, juntando as peças desse quebra-cabeças emocional, consigo visualizar algumas coisas que, pra mim, o amor não é. (Afinal é tipo música né? Acho mais fácil dizer porque não gosto de alguma música do que porque eu gosto.)

O amor não é força nem forçação. Não é imposição. Não é desrespeito. Não é retirar o objeto amado do mundo dele e transpô-lo para o seu mundo, ou para o mundo que você está querendo construir, pois as pessoas só existem com seus contextos. Em geral, após desconectadas, elas murcham como flores passadas ou, no mímino, deixam cair suas folhas mais bonitas. Entretanto, principalmente, o amor, pra mim, não tem nada, absolutamente nada, mas nada mesmo, a ver com ciúme.

Ciúme não está associado ao amor, não provem dele e nem está ligado naturalmente a ele. Não é prova de veracidade do amor zorra nenhuma e (relembrando, em minha opinião) diz até mais sobre aspectos mal resolvidos da pessoa de onde ele provem do que do comportamento do ser/objeto amado.

Objetivamente. Não tem segurança, a pessoa não tem um comportamento que você julga adequado? Parta a milhão mano véio, parta a milhão mana véia! Se aquilo ali não é o que seu coração quer, pé na estrada. “Pé quente, cabeça fria”, já dizia o mestre Passos Moreira. É mais fácil achar, no meio de mais de um bilhão de pessoas do mundo alguém que se encaixe no seu objetivo do que querer “dar uma remendada”, ou fazer um “puxadinho” em alguém que tem traços de comportamento/personalidade muito distantes do que você julga interessantes para um relacionamento. Afinal, no dizer de meu xará agora candango e gênio nas horas vagas, “as próprias pessoas são sempre as próprias pessoas”, o que, para além de um determinismo ou uma síndrome de Gabriela (eu nasci assim, e cresci assim e sou mesmo assim), empiricamente, é quase comprovação científica. As pessoas não conseguem mudar em um ritmo que seja satisfatório para os afoitos corações modernos.

Outra conclusão que cheguei empiricamente é que ciúme é veneno que se bebe junto. Se uma pessoa do relacionamento o inclui na pauta, a possibilidade de envenenamento coletivo é muito grande. Mesmo que a resposta não venha na mesma moeda (de desconfiança), virá (“impávido que nem Muhammad Ali”), de qualquer outra forma. Pode ser agressividade, falta de paciência, birras e, genericamente, em mudanças “negativas” de comportamento (que levam a pessoa a se afastar ainda mais do comportamento arquetípico-idealizado-desejado pelo outro).

Aí sempre tem aquela galera que alega o fator preponderância. Ter ciúme é o mais comum no mundo contemporâneo ocidental capitalista sudamericano (sim eu sei que o “certo” é sulamericano) sob a esfera de influência estadunidense né? Talvez. Talvez não, eu diria que, analisando o microuniverso à minha volta (novamente comprovações empíricas em universos de observação ridículos de pequenos), pode-se dizer que, de fato, é. Mas é por isso que a gente tem que achar normal e simplesmente aceitar? Acho que não.

5. Sobre retratos falados

Porra velho, outro dia recebia via zapzap uma mensagem com um retrato falado de um cara que supostamente estuprou uma médica em salvador. Supostamente não digo nem se o crime aconteceu ou não, tô falando que supostamente ele cometeu. Recebi aquela foto e fiquei pensando: o que me incomoda tanto nisso? Até que cheguei à conclusão bem simples: aquilo era um retrato falado, uma suposta imagem de uma pessoa que supostamente cometeu um crime...

Calma, calma, não estou de forma nenhuma menosprezando o crime analisado, acho até que talvez seja o pior dos crimes possíveis de serem cometidos, não vou aqui discorrer sobre os porquês do meu achamento, pois levaria um tempinho. Só pensei na reação possível àquela imagem. É um caso de altíssima divulgação na cidade de Salvador. Também não vou aprofundar no fato de ter sido um crime contra uma médica, integrante de uma parcela da sociedade que talvez seja mais acompanhada pelos veículos de comunicação. Mas o que me passou na cabeça mesmo foi aquela cena tétrica e bárbara de uma sexta feira à noite, com o povo tomando umas cachaças num boteco qualquer de um bairro periférico (a localização não supõe maior ignorância das pessoas que ali estão, foco aqui apenas na menor cobertura do policiamento ostensivo, algo tão infelizmente necessário na nossa sociedade). Aí vem um cara passando na rua e algum bebum alerta: olha ali o estuprador. Aí como diria um amigo meu, gestor público e dublê de filósofo, o IVDM (índice vai dar merda) atinge valores altíssimos!

Aí um outro amigo meu, muito ilustrado, sabido, médico, não alienado pelos estudos específicos, não-reacionário, progressista (sim, cabe na mesma pessoa tais características), disse: mas retrato falado é utilizado em tantos países, há tanto tempo... E pensei: a escravidão também era a regra em tempos pretéritos, em vários países e por muito tempo né? É. Mas seguir por esse caminho é esparro, vai dar muito pano pra manga. Vou voltar pra o que eu queria falar, pra não bagunçar demais a sequência lógica.

6. Sobre os efeitos de exposição midiática

Falei de um exemplo extremo de IVDM, de violência física direta, de um possível linchamento literal em praça pública. Mas borbulham por aí exemplos também de violência/linchamento moral/psicológica(o) em casos semelhantes, de julgamentos em “tribunais televisivos” ou coisas do gênero, dos quais nunca se consegue absolvição, reparação ou retratação.

Mas qual é o efeito prático da ampla divulgação de um retrato falado? Eu gostaria de saber, estatisticamente. “No sentimento”, (com diria meu professor de física do 3º ano quando ia lançar uma pegunta à sala) eu diria que não deve ser uma arma muito eficaz. Divulgação entre os agentes do Estado, polícia e tal, deve valer a pena. Mas pra a população em geral, será que gera efeito prático mesmo? Enfim, quem souber me diga fazendo favor. Se possível com dados de fontes minimamente confiáveis (ah, isso exclui, por óbvio a revista olhe, ops quer dizer, veja).

Ah, mas são poucos os casos, que dá merda, a maioria não rola esses efeitos colaterais, alguém sempre dirá. Sim, pode ser. Mas se tiver de haver uma injustiça desse tipo (julgamento prévio de um inocente) para que sejam detidos cinquenta criminosos posteriormente comprovados, já acho totalmente questionável a utilização do método. Não é à toa que o direito penal é diferente. Ele, teoricamente, só age quando os outros não dão conta, é tipo uma última arma da sociedade contra aquele elemento que não está se comportando da maneira esperada. Não dá pra banalizar a aplicação de penas ali previstas e menos ainda um fictício enquadramento de pessoas em situações ali descritas, sem antes ter a convicção.

7. Sobre a desistência

Dizem que desistir é mais fácil. Tem horas que vejo tanta coisa que discordo no mundo (e com indicativos que elas não estão diminuindo, muito pelo contrário) que penso: vou desistir, me entregar! Vou viver a vida no esquemão mesmo, me enquadrar 100%. Fazer a minha porra, focar no sucesso profissional-financeiro e foda-se geral. Deixar de pensar no mundo e nessa idiotice de busca por deixar algo de interessante de contribuição para essa zorra chamada sociedade. Afinal, eu não sei nem como fazer isso, por onde começar, que caminho seguir... Mas aí meu pensamento acorda e diz: ei, você ainda tem muito pra fazer porra! Afinal, para que servem as utopias?!

A mesma coisa em relacionamentos emocionais enquadrados naquele tipo descrito lá em cima. Tem gente que diz que o caminho mais fácil é desistir. Dizem que é o caminho dos covardes. Uma garota com quem convivi (e passei bons momentos), me falou uma vez que a evolução humana se dá mais rápida e intensa quando é à dois, pois a complexidade das questões a serem resolvidas nos proporcionam avanços maiores e em menos tempo. Até acredito. Mas hoje não estamos mais juntos. Talvez eu ainda não esteja preparado. Ou talvez minha capacidade limitada não seja compatível com tal intensidade de mudanças. Ou talvez não seja esse meu caminho ideal traçado por Jah. Ou talvez... Sei lá.

8. Sobre a negação e a reação desproporcional

Já que falei de relacionamentos, sigamos para dentro deles, pra alguns fenômenos muito comuns...

Reagir com agressividade a alguma atitude/ação externa, por exemplo é algo relativamente normal, ainda mais com pessoas com quem se tem intimidade. A intimidade é uma merda, já dizia a sabedoria popular. Por estar tão perto tem horas que a gente perde um pouco da autocensura. E acaba naquela merda que às vezes, por uma besteira, a gente deixa de dar bom dia pra quem mora com a gente, mas no busão sempre lembra de cumprimentar simpaticamente o cobrador. A desconstrução dessas atitudes é fundamental e, perceber o equivoco, é o primeiro passo, Assumi-lo perante a outra pessoa e pedir desculpas é o segundo. (Putz, tá bem auto ajuda isso aqui, que bosta...)

Sim, mas a reação desproporcional tem várias raízes, por óbvio. Tem coisas que interferem de forma tão brutal nos mais sedimentados pilares de nossas convicções que não há forma de reagir que não seja descer do muro (ou das tamancas) e quebrar o pau. Existem também as situações em que o fator externo é extremamente pequeno (o que não tira o direito à indignação) mas a reação é transtornada e desproporcional. Tipo, como diriam os comentaristas de futebol, “uso de força desproporcional”. Isso também me parece muito foda, tanto se a ação foi sobre um ponto pessoal e subjetivamente mais chato, quanto se foi pela repetição reiteradas vezes. Falo isso no auge da certeza que posso perceber tal reação em diversas merdas que já fiz aí pelo mundo. Acho que nessa hora (no mundo perfeito, das utopias, que um dia alcançarei) cabe a aplicação do princípio da insignificância em prol do bem maior que é o interesse coletivo.

Mas tem umas coisas que geram reações brutais que são ainda mais complexas... Durante a vida a gente “véve, véve” e não vê tudo. Mas outras coisas a gente vê algumas vezes. E juntando os cacos de vivências vividas e ouvidas, dá pra perceber que existe uma situação que é muito escrota. É quando a gente tem uma reação brutal pelo fato de alguém (geralmente bem próximo) utilizar-se de procedimentos bizarros que, se a gente prestar bem atenção, mas muita atenção mesmo, são coisas que a gente faria também, tá ligado? Tipo assim, aquela atitude revela um “defeito” igualzinho ao que a gente tem. E aquilo gera uma reação de negação agressiva daquela situação ao ponto de não perceber que aquele “absurdo” é justamente a mesma merda que vira e mexe a gente faz. (Okay, tempo para pensar...)

Da mesma forma me parece ser ato de negação acusar em excesso alguém de algum procedimento, ou realizar julgamentos pesados por determinadas condutas (realizadas ou apenas suspeitadas). Tipo assim, você vive a falar para o seu(sua) cônjuge: você deve é tá com um(a) amante; quando a gente terminar você vai arrumar outro(a) em uma semana... É claro que existe milhões de fatores que podem concorrer para essa preocupação ocupar lugar de tanto destaque na mente de alguém. Não excluo nunca fatores históricos e vivências, e nem possíveis questões biológicas-genéticas-sei-lá-o-quê. Mas o fator que me veio mais recentemente à reflexão foi: será que esse tipo de atitude não pode ser também uma forma de negar algo que está dentro da própria pessoa? De jogar no outro uma carga que se carrega e que é deveras pesada? Tipo uma forma de, no fundo, esconder algum assunto mal resolvido, desejado ou até praticado pela pessoa? Acho que tô viajando demais já né? Depois que eu fizer minha terceira graduação, que será em psicologia, falo mais a respeito...

9. Sobre redes sociais

Mundo moderno tem é arte... Falar em relacionamento sem falar em redes sociais nos dias de hoje é quase um absurdo. Os relacionamentos atuais têm de ter no contrato firmado inicialmente regras de uso das redes, limites a serem respeitados, aplicativos que podem ou não serem utilizados... Tem até relacionamento que começa pela internet e termina por causa da internet.

E aquela pergunta já vive fixa em minha cabeça: pra que porra serve uma rede social? Ah, mas você tem facebook, usava orkut, já teve fotolog, fez uma conta no instagram esses dias e esse porra desse blog que você alimentou outrora frequentemente, no seu momento “in” também era uma ferramenta semelhante... Sim, sim. E, pra você ver, até hoje, exceção ao blog, continuo sem visualizar uma função prática para tais ferramentas. Mas é isso mesmo, faz parte, tem um bocado de coisa sem muito sentido prático que a gente faz, tipo torcer pra time de futebol né? Mas tem uma coisa que me espanta na relação que algumas pessoas têm com as redes sociais...

Tipo assim, a sociedade atual (será que antes era diferente?) é uma porra onde muitas vezes as pessoas valorizam mais a imagem que se tem perante o coletivo do que a satisfação pessoal. [Se bem que acabo de falar uma merda das grandes né, porque a satisfação pessoal pode ser gerada a partir de qualquer tipo de coisa, inclusive da imagem que se tem (ou se acredita ter) perante os demais.]

Mas enfim, acho que as redes sociais amplificaram demais essa tendência, que em minha humilde opinião é um equívoco de foco, essa viagem de “imagem é tudo, sede não é nada”. Porra, vai se fuder se a porra de seu perfil não tem a quantidade de foto que o(a) outro(a) quer! Ah, mas que absurdo aquele(a) rapaz(rapariga) curtir foto sua! Que inaceitável você curtir uma postagem de alguma outra pessoa sem antes ter curtido a postagem de seu(sua) companheiro(a)-convivente-esposo(a). E aquele(a) piriguete(o) que eu não gosto, porque você ainda não deletou ele(a) de sua rede de amigos?... Man, e onde fica a importância da vida real? Que porra é essa?! Não tô dizendo que essas coisas de mundo virtual devem ser ignoradas não, mas acho que é importante mantermos a hierarquia clara entre a vida real e a virtual para não gerarmos relacionamentos virtualmente bem sucedidos e realmente fracassados. Até porque na rede é beeeemm mais fácil ser feliz do que na vida real né?

10. Sobre as prioridades manterem seu status de prioridades

Focar na vida real, nos problemas reais/não virtuais. E manter sempre a capacidade de empatia para nunca (quando possível, óbvio) deixar na mão uma pessoa que está realmente precisando. Isso já basta para manter as prioridades como prioridades.

11. Sobre as histórias e o eterno retorno

“Dizia Chico Futa:
Pode mesmo a gente saber como é um caso começou, aonde começou, porquê, pra quê, quem? Sabe mesmo o que estava se passar no coração da pessoa que faz, que procura, desfaz ou estraga as conversas, as macas? Ou tudo que passa na vida não pode-se-lhe agarrar no princípio, quando chega nesse princípio vê afinal esse mesmo princípio era também o fim doutro princípio e então, se a gente segue assim, para trás ou para a frente, vê que não pode se partir o fio da vida, mesmo que está podre nalgum lado, ele sempre se emenda noutro sítio, cresce, desvia, foge, avança, curva, pára, esconde, aparece... E digo isso, tenho minha razão. As pessoas falam, as gentes que estão nas conversas, que sofrem os casos e as macas contam, e logo ali, ali mesmo, nessa hora em que passa qualquer confusão, cada qual fala a sua verdade e se continuam a falar e discutir, a verdade começa a dar fruta, no fim é mesmo uma quitanda de verdades e uma quinda de mentiras, que a mentira é já uma hora da verdade ou o contrário mesmo.
[...]
O fio da vida que mostra o quê, o como das conversas, mesmo que está podre não parte. Puxando-lhe, emendando-lhe, sempre a gente encontra um princípio num sítio qualquer, mesmo que esse princípio é o fim de outro princípio. Os pensamentos, na cabeça das pessoas, têm ainda de começar em qualquer parte, qualquer dia, qualquer caso. Só o que precisa é procurar saber.”




José Luandino Vieira, nesse momento, muito conectado com o espírito e a forma de funcionamento desse embolorado blog...

domingo, 6 de julho de 2014

nowhere man

É muito louco quando você acha que onde você está não é o seu lugar. E é mais louco ainda quando você acha que onde você estava antes também não era.

sexta-feira, 30 de agosto de 2013

A Relatividade II

Tudo tem sua hora. Até pra cagar, tem que saber a hora. Um colega da faculdade de arquitetura me dizia que se você cagar no momento que tem vontade, naquela hora que vem a vontade mesmo, não ficar enrolando, perceberá uma grande diferença: sua região traseira quase não estará suja quando for se limpar. E o pior é que é verdade! Hahahahahahaha!



Ah, a relatividade das coisas... Acabo sempre viajando nessas ondas. E é engraçado que, assim como comecei falando em merda, a relatividade é pra mim uma coisa tão presente que, às vezes, me vem à cabeça exemplos escatológicos bem legais (meio estranhos, na verdade, mas legais de qualquer jeito). As fezes da gente, por exemplo, o que a gente elimina, o que nosso corpo não quer mais (ao menos naquele momento), pode ser o adubo da planta, o que faz ela crescer forte e nos fornecer os seus deliciosos frutos né? Na casa que meu pai tinha no condomínio Encontro das Águas, em Lauro de Freitas-BA, as plantas que mais cresciam eram as que estavam perto da fossa. É a reciclagem natural né? Uma coisa meio Josué de Castro em Homens e Caranguejos... E a urina? A urina, em uma situação limite, pode, ela mesma, recém expelida, matar a sede. Té cheio de relatos de histórias de urina salvando gente por aí. Ou seja, até a gente mesmo pode revalorar as coisas. Ou seja (de novo), pode, mesmo dentro da gente, rolar uma onda de relativizar o valor das coisas. E digo isso no sentido mais físico-químico possível, não falo nem na coisas conscientes, de dar valor racionalmente. Falo da consciência do corpo, aquela consciência que a gente não tem nem consciência, tá ligado? Em suma, cada um tem uma capacidade de aproveitar as coisas e isso ainda varia de momento a momento, inclusive.


Símbolos.


Símbolos, signos, palavras, gestos... Tudo muda de significado. Ou melhor, tem vários significados concomitantes. E acho que isso é uma coisa vital de se levar em conta para conviver em sociedade. Tem um exemplo que é clássico e bem simples de se visualizar que é o do hino nacional no período da ditadura militar no Brasil. Os milico lá, tudo cantando o hino nacional e, do outro lado, os revoltosos-revolucionários-e-todo-tipo-de-indignados-e-etc cantando o mesmo hino, a plenos pulmões. Será que eles tavam dando o mesmo significado àquilo? Acho que não, né? O que aqueles versos diziam, variava pra cada um, mesmo sendo eles falantes da mesma língua. Raul Seixas, falando sobre Gita, já dizia: quando você tá cantando, aquilo ali passa a ser seu. Acho que é por aí mesmo.


Tempo tempo tempo


Os símbolos ganham significados novos com o tempo também. Tem algumas coisas que vão se distanciando do significado inicial, chegando alguns até a pontos absolutamente diversos dos originais. Tava viajando esses dias no casamento católico, lá na igreja, todo bonitinho. O branco da noiva representava a pureza (vulgarmente conhecida por virgindade). Putz, quem é que, nos dias de hoje, casa sem fazer o sexual-test-drive antes? E aquela cerimônia toda tinha um bocado de significado que, em muitos momentos de minha vida, já achei desprezível, ridículo mesmo. Hoje não mais. Hoje consigo ver naquela coisa toda um significado de agregar, reunir pessoas queridas, comemorar um momento com pessoas legais ao redor, enfim... Hoje em dia vejo com olhos mais complacentes aquilo que outrora eu chamaria de um grande presépio.

Passando a bola...  


O futebol tem dessas coisas também né? No inicio o futebol era coisa de gente fina, tinha preconceito de aceitar pobre, operário, preto... Uns clubes demoraram mais, outros um pouco menos, mas todos acabaram tendo que ceder o espaço aos reles mortais pobretões-afro-brasileiros que, por um desses acasos da vida, tivessem nascido com a facilidade de lidar com a bola. E hoje em dia, olha a porra que é aí! Quer coisa mais popular do que futebol? Acho muito louco e muito válidas essas mudanças de significado. Tanto no coletivo quanto no individual. É tudo mesmo uma metamorfose ambulante. Até as coisas que não andam né?


Futebol, inutilidade divertida


Aí tem aquela onda futebol ópio de povo, política do pão e circo e tal... Beleza, beleza, tá no contexto também. Eu mesmo já passei por diversas fases futebolísticas, do amor ao ódio extremo (a ponto de torcer que a seleção brasileira perdesse a copa de 98, por exemplo). Hoje pra mim é só passatempo, diversão inútil, como qualquer outra diversão sem objetivo muito prático. Tem gente que curte novela, tem gente que curte ir pra micareta, tem gente que curte revista caras, tem um bocado de coisa por aí sendo curtida em alta pelas pessoas. E o grande exercício diário é o de estabelecer um debate com essas outras preferências sem se deixar cair na prepotente ideia de superioridade de suas escolhas sobre as dos outros. Tem horas que é bem difícil, mas vale a pena. Pode não parecer mas eu tento aplicar isso aí no laboratório da vida.


Religião


A sociedade muda muito rápido, tudo muda muito rápido. Os significados, como ia dizendo inda agora, mudam muito rápido. E aí vem a pergunta: como é que algo que é baseado em leis muito rígidas consegue atrair tanta gente? É claro, tem aquela onda de busca pela infinitude, numa perspectiva de finitude humana e tal. Mas num é nem nisso que eu tava viajando agora. Tava viajando agora na dificuldade das religiões de se relacionar com a mudança dos tempos. E viajei que, nos dias de hoje, essas mudanças tão rápidas e devastadoras de significado das coisas também complicam a vida das pessoas. Tem uma pá de gente que tá ficando louca por aí, sem saber mais que caminho seguir, porque o caminho que era correto e legal ontem, hoje é bizarro, antiético, ilegal. Talvez um pouco por causa disso também, da busca por um porto seguro, da busca por algo firme para sustentar suas convicções - com tanto esforço formadas! - é que algumas pessoas busquem os dogmas bem definidos e (quase) imutáveis das religiões.


Mas ainda assim, acho que a saída viável para o diálogo atualizado e não anacrônico das religiões com a sociedade só existe se a religião tiver um núcleo fixo básico e imutável bem pequeno, dando espaço para novas interpretações, novas leituras das mesmas palavras, de acordo com as novas realidades que se apresentarem. Mas o que eu acho também não quer dizer nada, né? O que acontece por aí, me parece, é justamente o contrário, as correntes mais imutáveis é que tão é bombando por aí...


Religião Baiana


A religião acho que se fortalece no sentimento coletivo né? Você chega lá e faz parte de um grupo, está entre semelhantes. Na Bahia, de onde eu vim, acho que tem um tipo de religião também muito interessante: religião da baianidade. É mais ou menos a mesma coisa. E vejo isso muito nítido nos artistas*, principalmente da área da música. Você pega os cantores/instrumentistas baianos e o que diferencia dos outros? Na minha humilde percepção (talvez bastante influenciada pela minha origem) os artistas baianos passam uma sensação de territorialidade mais nítida que a maioria dos provenientes de outros locais. Quer dizer, isso é o que eu vejo/sinto em termos históricos. Hoje em dia, em tempos de globalização e mundialização, como previam alguns sábios como Milton Santos, o surgimento de todas as opções na prateleira cultural fez com que, ao mesmo tempo em que se homogenizavam algumas manifestações, outras radicalizassem em sentido contrário, no caminho da estética singular local. Vejo hoje alguns estados da federação como Pernambuco e Rio Grande do Sul, por exemplo, deixando muito claras suas raízes em suas manifestações estéticas.


Mas voltando pra Bahia, acho que durante um certo tempo houve uma leva de artistas da Bahia que realmente se destacaram muito no país. Mas isso passou, hoje em dia a produção (e a divulgação) da produção artística está bem espalhada pelo país. Mas porque (além do fato que eu sou baiano) eu ainda acho que no mundo das artes a Bahia tem tanto destaque? Eu fiquei viajando uns dias sobre isso e percebi que a onda é a daquela coisa de pertencimento mesmo, que não é tão nítida em artistas de outros lugares. A coisa de suas produções exalarem baianidade, terem cara de Bahia. Pra ser justo mais uma vez com minha consciência, hoje em dia percebo muito isso com alguns outros artistas, especialmente de Pernambuco. Mas em geral, analisando outras regiões específicas, os outros estados da federação, vejo muitos bons artistas (muitos mesmo) de outros lugares, alguns realmente ótimos. Mas são em geral artistas que eu e o homem médio (essa ficção engraçada que não sei de onde veio) parecemos não saber de onde são.  


*E olhe que na bahia todo mundo é (ou se acha) artista um pouco artista...


Por falar em referência...


Eu falei em referência né? Referência ao seu local de origem, de pertencimento. Mas mudando um pouco, praticamente de assunto pra presunto, a referência da sociedade contemporânea é o estado de direito, não é? Sei lá, trabalhar na justiça faz a gente lembrar disso toda hora. E tem um brodinho chamado Hans Kelsen que, em rasas palavras, coloca como papel do estudioso do direito o de quem deve estudar a lei somente, tal como está escrita, sem espaço para interpretações e sem lugar para questionamentos sobre sua validade. Na real, se bem me lembro do que ele escreve lá no único livrinho dele que eu li, ele empurra a ideia de reflexão pra outras áreas, tirando o dele da reta. Em suma, ele dizia que a lei é legitimada só por ser a lei. E antes dela vem uma outra lei basilar, o que a gente chama de constituição hoje em dia, que legitima a zorra toda. Mas aí rola aquela de ler aquilo e ficar um bocado agoniado pensando o quão filadaputa é essa estratégia. E o pior: o quanto ela “pegou”.


É muito cômodo pensar que “lei é lei”, que o que vale é a defesa do “estado de direito”. Essa balela formalista, é, nada mais do que a estratégia mais simples pra fazer com que a estrutura atual seja tida como imutável, algo tão basilar que não deve nem ser discutido. Igualzinho àquela história do “fim da história” quando do colapso da união soviética. É muito mais cômodo esquecer que essa porra que a gente chama de lei é nada mais do que uma convenção do momento. Algo que, em teoria, reflete o que pensa a maioria da população (ou o “homem médio”, olha ele aí de novo!) sobre a forma de organização social, sobre como devemos guiar nossas ações no convívio coletivo. Só que, como qualquer convenção, é só uma convenção! E se for ver quem, na realidade concreta, produz essas leis, quem legisla em nosso nome... Rapaz, a gente tá fudido.


Pode parecer lugar-comum falar isso mas, assim, de boa, tem que ser dito: a democracia no nosso país é uma grande farsa. Não está nem perto de merecer o nome de “democracia” e nem tampouco de “representativa”. Só se a gente disser que ela é representativa de interesses (bem) específicos. Porque, em teoria, ela deveria representar a complexa rede de interesses que existem no país, retirando, dialeticamente, de suas teses e antíteses, uma síntese coerente. E quando a gente vê que quem tá lá (pseudo)representando o povo, representa, na verdade, mais certas panelinhas tipo a de quem financiou a companha, dá pra entender a coerência da ideia de campanha política financiada pelo próprio Estado. O grande camarada Norberto Bobbio coloca muito bem a questão da legitimidade em seu simpático livrinho Estado, Governo e Sociedade. E assim, porra, isso é uma coisa que deveria ser bem básica na reflexão de qualquer ser humano mas, na correria dos dias de hoje, é mais fácil ler uma postagem de facebook, onde consta uma imagem bonita e mais, no máximo, três linhas de texto né? Legitimi-o-quê? Sei nem o que é isso... Legitimidade… Tá na moda não. Mas maior idade penal dá pra (pseudo)debater porque nas redes sociais tem um bocado de fotinha de gente que foi assassinada por menor de idade com requintes de crueldade. É, então tá de boa, com base nisso, já temos opinião. Opinião profunda como poça de garoa paulistana.


O sapo Weber


Aí eu leio num livrinho de Weber e ele diz, numa notinha de rodapé, lá nos idos de 1900 e besteirinha, que a predominância do direito se dá, justamente, por uma lógica que, se a gente for ver, acaba se conectando com Kelsen. É a tendência da galera de entender o “estado de direito” e suas instituições como uma base sobre a qual praticamente nada se discute, a partir da qual deve subir toda a edificação da sociedade. Aí eu penso: putaquepariu, o cara tava falando isso naquele tempo e hoje em dia isso parecendo tão atual. Olho pra o lado e vejo meus colegas (eu, inclusive) caindo para a área do direito. Putz, tamo tudo entregue à Babylon! E pra complicar mais ainda (na lógica de “quem vem primeiro o ovo ou a galinha?”), tem as facilidades de se abrir uma faculdade de direito que sequer precisa ter um laboratório ou qualquer ferramenta tecnológica. Compra meia dúzia de livro, pronto, estrutura física garantida. Assim elas acabam brotando como grêmilins a cada chuva que dá. E aqui em São Paulo chove muito né? Mas ainda assim, parece ser, como disse Weber, a compreensão de que “sobre a lei nada se discute, basta conhecê-la”, o propulsor do grande interesse da sociedade nessa seara.


Advogados...


Trabalhar na Justiça é ver uma realidade muito escrota também: advogado é igualzinho a assistência técnica. Se aproveitam da ignorância dos outros. Lembro de ouvir histórias, uns anos atrás, sobre causos absurdos no INSS. E olho hoje pra o que acontece no meu trabalho, na Justiça do Trabalho, e vejo merda similares. É o monopólio da informação agindo de forma mais escrota possível. E é a lógica que predomina no mundo jurídico, a começar pelas leis que deveriam ser escritas de forma a serem compreendidas por todos os nacionais e que são feitas, muitas vezes em linguagem absolutamente fora da realidade, deslocada do mundo atual, arcaica, gerando, em termos práticos, algo absolutamente incompreensível pra que quem não é da área. E aí se reforça o predomínio da área jurídica. Porque afinal, são essas coisas ininteligíveis (e em quantidade inimagináveis) que determinam como devemos agir em sociedade e contra as quais não podemos nem alegar desconhecimento! É parceiro, a coisa não tá boa pra ninguém...


Sazonalidade legal (pra não dizer que não falei dos espinhos)


E tem aquela outra viagem que são os legalistas sazonais, tá ligado? Tem uma galera que abraça a legalidade somente quando lhe parece útil (eu mesmo já fiz muito isso, tô tentando melhorar, acredite). E aí chega e diz que “a lei não vale nada, é escrota, protege interesses escusos” (que não são os meus) e tem que ser retirada do mundo jurídico. Certo, mas as outras que te agradam, essas tão lindas né? Hehehehehe. O pior é que tão lindas mesmo. Talvez não sejam tantas atualmente, mas tão lindas. É óbvio que o que não te agrada em relação à legislação em vigor é exatamente o que você deve combater, é contra o que a gente deve lutar, é esse o processo político da sociedade, é assim que, um puxando daqui, outro puxando dali a gente vai dando às leis a cara da sociedade, a cara que mais parece com o coletivo. Ou seja, um frankstein do caralho! Mas ainda assim, se é pra discutir as leis, debater sob uma análise sociológica, questionar a legitimidade, mais do que sob a ótima estritamente jurídica de Hans Kelsen, devemos fazer isso sempre (vai dar um trabalho da porra, sim eu sei, rapadura é doce mas não é mole não... era mais fácil se entregar à derrota ou à revolta de facebook né?).


Lei, gramática, etc


Por falar em “base sobre a qual nada pode ser discutido”, para além do direito, existe uma situação ainda mais escrota... A língua portugo-brasileira. Velho, a língua, linguagem, idioma, sei lá que porra é o nome certo (sei lá se existe um “certo”), é uma ferramenta que uma galera das antigas inventou para se comunicar. E a tal da Gramática, é uma coisa que uma galera um pouco mais recentemente inventou pra tentar descrever o funcionamento da língua. Presta atenção nesse detalhe: pra “descrever” o funcionamento da língua. Nunca foi pra “determinar” o funcionamento da língua. A língua tem vida própria, vai se metamorfoseando com o uso. Só não muda língua que não é usada. E se não é usada, perde, em minha humilde opinião, razão de existir.


Aí vem uma galera de “linguistas” (agora sem o trema) sair na tevê pra dizer que “entrega a domicílio” é errado, deveria ser “entrega em domicílio”, que “risco de vida” é errado, tem que ser “risco de morte”... Ah meu irmão, prepara uma garapa das boas... Se a língua funciona, tá valendo. A língua é de uso de todos e a todos pertence. Ela não é de propriedade de uns poucos iluminados que decidem o que deve ser e o que não deve ser (baseado em critérios absolutamente duvidosos, diga-se de passagem). Essa mania de querer impor uma coisa de cima pra baixo é muito escrota e sem lógica. Fred Zero Quatro já dizia: “não espere nada do centro se a periferia está morta”. Quem traz as inovações, quem faz a língua viva de verdade é o coletivo, é o povo, são, principalmente, os centros de uso onde as pessoas são desapegadas das regras inúteis. Nesse ponto, básico é o amiguinho, Marcos Bagno, sempre falo dele, mas é inevitável, o cara é meio tipo Paulo Freire da linguagem.


A base e as figuras


O princípio que, a meu ver, não se pode perder, já falei: a gramática, a linguística e etc servem para descrever o funcionamento da língua, não para determinar o funcionamento. Elas devem auxiliar para quem quer estudar, compreender melhor o modus operandi da língua, nunca “legislar” o que deve e o que não deve ser feito sobre a língua. Só pra ilustrar essa coisa de que a gramática serve pra descrever o funcionamento da língua, tem uma coisa muito legal que são as chamadas “figuras de linguagem”. Alguém lembra disso? Eu mesmo fico toda hora resgatando essas simpáticas inutilidades dos tempos de colégio pra falar: isso aí é uma sinestesia, isso aí é uma hipérbole, isso aí é uma elipse... E aí vem a pergunta: será que algum grande gramático, do conforto de seu escritório parou, pensou, refletiu e inventou as figuras de linguagem? Velho, sem noção achar isso né?


A elipse, por exemplo, surgiu do uso comum da língua, de eliminar palavras que são desnecessárias, que sem elas a mensagem já tá passada, todo mundo entende. Aí você pega e fala: “em casa, silêncio”. Porra, que bonito, nem precisou do verbo pra falar e ainda falou bonito...  Mas aí se o cara diz hoje que “os mano vai” vem alguém e diz que tá errado, que o cara é ignorante e tal. Rapaz, a mensagem tá passada, todo mundo entendeu que é mais de uma pessoa. É como se fosse uma elipse de um plural desnecessário. Uma palavra já mostrou o plural, desnecessário as outras reafirmarem isso. Daqui a alguns anos essa porra pega e vira uma zorra de uma figura de linguagem e todo mundo passa a achar bonito. E foi assim com as outras figuras de linguagem lá, existiam na vida real e a gramática teve que inventar uma forma de descrevê-las para, teoricamente, estudá-las melhor. Onomatopeia, paradoxo, hipérbole, antítese, sinestesia, essas coisas... tudo inventado pra descrever o funcionamento real da língua.


Complexidade da sociedade


A língua é complexa porque a sociedade também é complexa, Hoje em dia a organização social é tão complexa que torna inviável a gente participar de tudo. Um desses camaradas pensadores bem clássicos que eu li, em algum momento, em algum lugar, provavelmente um resumo, falava que a gente tava no momento mais complexo da organização humana. E é bem por aí mesmo. Tava lendo esses dias um livrinho sobre administração pública e o brodinho falava num trecho lá exatamente sobre como, devido a complexidade de organização do Estado, havia alguns cargos e espaços que não existia condição de serem ocupados por agentes fruto de indicação política, típicas do modo de gestão que nos acostumamos a ver em nosso país. Apesar desse papo dele no livro ser uma boa introdução pra uma sequência de conclusões com as quais eu não concordo, é algo que tem de ser levado em consideração. São, às vezes, pequenos descaminhos da democracia em seu sentido absoluto que, nos dias de hoje, inevitavelmente têm que acontecer. Existem áreas onde a especialização é tamanha que o universo de pessoas habilitadas a geri-las é muito restrito. E assim, de boa... se for parar pra ver bem, a gente já tá tão longe de uma democracia real, com a participação do coletivo nas decisões mesmo, né? O que é um peido pra quem tá cagado, já dizia o filósofo.


Complexa conexão adiposa-musical


Musica é comunicação né velho? Então tem emissor, receptor, mensagem, meio... Aí eu ouço dia dessas música falando de Camaro amarelo, Dodge Run, Land Rover... Pra que público é voltado esse tipo de música? Será que é pra os que possuem tais carros ou para os que simplesmente admiram? Se for pra quem possui, acho que os compositores/cantores vão morrer de fome. E será que isso funciona em qualquer lugar? Fui pra Cuba, ouvi muita musica boa. E penso agora, será algo com mensagem desse tipo funcionaria lá?


A música de Cuba é coisa linda de Deus. Aí lembro de Tinhorão que falava nalgum livro dele sobre o lixo musical que vem do estrangeiro. Ele falava sobre aquela onda de o que chega aqui, em geral, é a porcaria de lá, o que é produzido com intenção meramente comercial. E aí eu lembro como, antes do Buena Vista Social Club, além de uns discos da Orquestra Românticos de Cuba (que na real não tenho nem certeza se são de lá mesmo), eu não ouvia quase nada da ilha. Será que a eles faltava um certo “aporte financeiro” pra emplacar as musicas pelo mundo? Hum…


Adiposidade físico-musical


Se Tinhorão dizia que o lixo musical das mega empresas estadunidenses vem recair sobre nossos ouvidos, que dizer então sobre o lixo alimentar? Uma coisa que não entrava em minha cabeça quando eu era pequeno era que haviam tantas pessoas gordas em bairros e situações periféricas em Salvador. Mas aí um olhar minimamente atento pode perceber que tipo de comida chega por lá. É um tal de salgadinho de quinta categoria, de refrigerante a toda hora… É só chegar em qualquer restaurante/supermercado hoje em dia e perceber que o suco é sempre mais caro que o refrigerante; o alimento light, com baixa caloria, sem açúcar ou qualquer coisa desse tipo é sempre mais caro que o mais tosco e cheio de gordura hidro-power-saturada-transgenica e os caralho a quatro.


Daí volta pra música e alguém relembra aquela ideia de que “o povo só ouve porcaria”. Mas isso na vida real pode acontecer facilmente se a gente percebe que a música é como o alimento. Quanto mais elaborado, mais bem cuidado, provavelmente mais caro vai ficar. Lembro bem quando eu era pequeno e ia nas lojas de discos, via lá os cds de jazz. Cada coisa bonita da porra. E era tipo assim: quase tudo importado, todos o dobro do preço dos outros cds. Putaquepariu. Se a porra não toca na rádio e o cd é caro, vai chegar quando à população pobre? Foda…


Bundalelê musical


Eu até não sou muito chegado a essas coisas de rotular a musica como boa ou ruim, porque isso é uma coisa muito delicada. É tipo relativo né? Mas dia desses ouvi dizer que alguém tava falando aí pela grande mídia que música de verdade era pra cabeça e não pra bunda. Além de ser uma grande injustiça com nosso traseiro, penso que quem falou isso é uma pessoa infeliz. Ora pois, a música pode servir pra todos os momentos, pra alegrar, pra refletir, pra descontrair, pra qualquer coisa/momento da vida. Acho limitado o pensamento de quem acha que música só pode servir pra uma coisa, seja de um lado, seja do outro.


Mas que porra de papo que não acaba!


Teve um amigo (meio hippie) que me disse uma vez: até na hora que você tá se masturbando, você tá conectando com a energia da pessoa em quem você tá pensando. Aí lembrei de outro amigo (menos hippie) que dizia que quando conhecia uma mulher, qualquer que fosse, mesmo que ele não tivesse intenção de ter qualquer tipo de relacionamento com ela, ele se masturbava pensando nela. E chegava à conclusão: se o processo masturbatório fosse legal, ela poderia ser uma boa amiga. Porra, olhaí ó, tudo conectado: o pensamento hippie e o não-hippie!


Por falar em porra, sempre bom lembrar a amigos baianos, que, assim como eu, tem o costume de usar “porra” em todas as situações do mundo: muito cuidado com essa expressão aqui em São Paulo. Em Salvador a gente fala porra o tempo todo e nas mais diversas funções. “Que porra é essa?” (função coisa); “que sacanagem da porra” (função intensidade), “um lugar bom da porra” (função intensidade de novo), “se a gente não for, porra, tamo fudido” (função vírgula), “uma porra de um advogado” (não sei que porra de função é essa, mas rola também). A porra daqui, ao que me parece, é, essencialmente, aquele liquido que sai do órgão sexual masculino, geralmente quando se alcança o ápice da estimulação sexual. Então, melhor evitar.


Da mesma forma, aos amigos da paulicéia, vale alertar: cuidado com o uso da expressão “gala”, quando estiverem em terras baianas. Eu via a licença que os servidores tem por conta do casamento, a chamada “licença gala” e me divertia dizendo que não havia nada mais bem colocado. E depois de um tempo percebi que as pessoas sorriam meio que por educação, sem na real entender o que eu tava falando. Até que um colega do trabalho me questionou sobre isso e, após a devida explicação (com todo o palavreado coerente com a situação de ambiente de trabalho), ele disse: ah, aqui a gente não usa essa palavra com esse sentido não. E eu: putz, mais de um ano de piada no vácuo!

P.S.1: Pra variar tinha mais um bocado de coisa pra conectar, mas é melhor terminar antes que nem eu consiga mais ler essa porra. Resolvi não citar mais os amigos que influenciaram no texto, acho meio escroto porque posso esquecer de alguém que gerou alguma reflexão, alguém de quem eu roubei uma ideia...
P.S.2: Tem horas que me pergunto: será que ainda tenho tempo/saco/ideias válidas pra escrever nesse blog? Pelo intervalo entre uma publicação e outra, num sei não...
P.S.3: ontem, dois anos de São Paulo. E nem rolou bolinho!

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

A Relatividade

Quando eu era muito pequeno meu irmão Ernesto Pereira Galindo me deu uma explicação sobre a teoria da relatividade que era muito legal. Provavelmente ele nem lembra disso. Ele devia ter menos de 10 anos. E eu menos ainda. Era mais ou menos assim: tudo é relativo porque tudo se interliga. Por exemplo, uma árvore é relativa à mesa de lá de casa porque da árvore vem a madeira que é feita a mesa. O chinelo é relativo à televisão porque as pessoas usam chinelos e o cara que trouxe a tevê que a gente comprou na loja até aqui dentro de casa, se não usasse um chinelo, podia ter pego (ou pegado) uma gripe e não ter vindo trazer a tevê. Sacou a viagem? Porra, massa. Nessa onda, percebi depois, dá pra relacionar tudo com tudo e de várias formas. Achei a genialidade das genialidades.

Rock against the machine

Uma brincadeira clássica que eu fazia pra abusar meu amigos roqueiros era de dizer que eu não gostava mais de rock, que rock era coisa de adolescente imaturo e não-sei-o-quê mais. Mas mesmo nas brincadeiras, eu tinha sempre que dizer que, de rock, eu ainda gostava de Led Zeppelin, Rage Against The Machine e Vinil 69. E por tabela, só iria pra show de rock se fosse de uma dessas bandas. Sendo que na época (e já há bastante tempo) John Bonham, batera do Zeppelin tinha morrido, O Rage Against tinha acabado sendo que três dos quatro componentes já estavam em outra banda e a Vinil 69 era uma banda de um vocalista presepeiro (uma abraço Pardal!), tava fácil pra mim abandonar o rock. É, tava.

E eis que um belo dia, do nada, o Rage Against The Machine revive. Não contente, decide vir tocar no Brasil, pela primeira vez. Aí me fudeu. Obrigação moral de ir. E fui. O show foi fodaço, os caras são, em minha opinião, sem dúvidas, a bandas mais instigante do mundo. Beleza. Só teve um detalhe nesse evento que (quase) passou despercebido. Há um tempo tinha uma galera já falando de uma cantora nova que era massa, que eu tinha que ouvir. Eu fiquei meio enrolando, vou ficando com medo quando a pessoa vai ficando muito hype, muito da moda, do momento, unanimidade. Mas aí olha quem tava tocando lá no Festival que fui pra ver o Rage? Ora, ora, se não era a tão falada Tulipa Ruiz!

As relatividades musicais

O show não me deixou boquiaberto não, não vou mentir. Mas aí depois fui baixar o disco da broder. Aí baixei, ouvi uma vez, ouvi duas, pá... Porra, massa. Aos poucos fui me apegando aquele som. Só que teve uma coisa que, desde a primeira vez que ouvi o disco me deixou encucado. Tinha uma porra de uma guitarrinha no final da música A Ordem das Árvores (que por sinal é hit imediato) que eu fiquei viajando: onde é que já ouvi essa zorra? Com quem Tulipa estava estabelecendo uma relatividade ali, fazendo uma conexão/referência? Pensaria nisso durante muitos dias.

Tempos Olímpicos

Assim, na boa, mudando de pau pra cacete, tem uma coisa que me parece necessário ser colocado neste momento de ressaca pós olímpica. É o seguinte: não vamos dar mais importância ao esporte do que ele realmente tem! Velho, esporte é esporte, é uma disputa, um ganha e um (ou um bocado) perde (ou perdem). Torcer é legal, mas acabou o jogo, acabou.

Vamos a um exemplo: a seleção brasileira de futebol masculino perdeu o ouro na final das Olimpíadas. Certo. Mas e aí? Jogou 6 jogos, ganhou 5, perdeu um. Ah, mas era o primeiro adversário com alguma qualidade. Certo, mas sempre é jogo. E o pior, no futebol, especificamente, é ainda mais escroto o esquema. Não é que nem o basquete, o vôlei. Nesses esportes é muito difícil o que joga melhor não ganhar. Futebol não. Futebol uma jogadinha besta, uma bola passada errada (qualquer semelhança é mera coincidência), um erro do árbitro, pode definir o jogo. Tá, a seleção masculina de basquete perdeu o jogo pra Rússia nas Olimpíadas por um ponto, talvez se Leandrinho não tivesse escorregado na hora de chegar na marcação tivesse evitado a cesta e tal... Mas isso é exceção. O normal no vôlei e no basquete é que o time que joga melhor ganhar. Já no futebol...

Propaganda medalha de ouro

Sempre (ou quase sempre) bom retornar aos tempos antigos pra lembrar que me formei em publicidade & propaganda. E tem uma propaganda da Sadia, se não me engano,que tava no ar esses dias que é bem legal. Ela diz mais ou menos: esporte é a hora de se divertir. Pronto. Tá lindo. Esporte é pra se divertir. Os caras foram no ponto. Porra de ficar levando a sério demais... Só dá merda. Aí vem, dentre outras coisas, até a violência.

Pra mim, essa onda de ficar discutindo muito “o que devemos fazer pra aprimorar nossa performance no esporte olímpico” é conversa besta. Resumindo de uma forma bem extrema eu diria que ir bem no esporte não avança em nada o país. A única exceção seria no âmbito de dar liberdade às pessoas de conseguirem viver do que mais gostam de fazer, se o amor real delas for o esporte. Aí beleza. Mas sem querer ser metido a maduro socio-politicamente – até porque assisti tudo o que pude das olimpíadas, torci como a porra pra todos os brasileiros, torci até pra a Argentina, no basquete contra os EUA! –, essa é a real. A gente tem tanta porra pra melhorar, vamo melhorar no esporte? Se fosse que nem nos EUA (e olha que eu pessoalmente não tenho grandes simpatias pela forma de organização social de lá) que os atletas vem das escolas, aí tava lindo. Se o esporte estivesse nas escolas por aqui também, aí sim eu via vantagem. Porque aí o cara tá lá, estudando e treinando, a base dele tá lá, tá feita. Me parece ser meio a coisa da aula de educação física que revela potenciais. E se o esporte não vier com grande importância na vida da pessoa (o que é até o mais provável), segue nos estudos, vamo simbora. Em Cuba me parece que a situação é semelhante, esporte na escola. Aí é massa. Aí a melhora de desempenho em esportes olímpicos viria como conseqüência e seria muito bem vinda.  

Sim, Cuba né?

Aí um dia desses eu fui pra Cuba. Como diria o setentão Caetano Veloso, mamãe eu quero ir pra Cuba <link música>. Pronto fui. Acho que depois preciso escrever um post somente sobre essa viagem, tem muita coisa pra refletir. Mas como tava falando de esporte, Cuba é um país que historicamente tem (ou tinha?) desempenhos absurdos no esporte. Na humilde opinião de um cara (eu mesmo) que acabou de voltar de lá, ainda hoje, se você parar pra analisar, é um desempenho monstruosamente bom pra as condições de vida e infraestrutura por lá. O esporte tem importância lá, mas o que dá pra ver é que o que realmente se destaca lá, na minha observação, é a educação, saúde e, especialmente pra quem é de outras terras, a música. Rapaz, a música lá é uma onda muito foda. Cada esquina que você chega tem um grupo tocando. Tá, beleza, tem momentos que você cansa de ouvir um ou outro clássico que eles tocam, com nítido objetivo turístico. Mas tem outras ondas que são muito punks. Vou falar só de uma coisinha pra ilustrar.

Na maioria dos locais onde tem som acontecendo, os grupos tocam de forma totalmente acústica, sem nem microfone pra a voz. Ouvi dizer até que tem a ver com as dificuldades em relação à energia mesmo, que não é uma coisa muito fácil por lá. Mas isso acaba revelando uma, por assim dizer, educação musical dos grupos, especialmente da ala percussiva, que toca tudo de forma harmoniosa, sem que um instrumento se sobressaia em relação aos outros. Muito bom. Acho que seria uma boa lição pra uma galera de percussionistas baianos.  

E a saúde, minha gente? (com sotaque à la Camila Barbosa/Bruno/Sávio)

Mas voltando ao esporte e à minha opinião de quase desprezo ao desempenho olimpico brasileiro. Esporte é saúde né?Ah, então vamos incentivar o esporte que é o canal, bota todo mundo pra ser atleta profissional, ficar cheio de saúde.... É... Mais ou menos, né? Se o caso é esporte de alto rendimento, não é bem assim não. Esporte de alto rendimento, ou seja, no caso específico que estávamos falando, esporte olímpico, não faz bem à saúde não, muito pelo contrário. O que o esporte nesse nível faz é matar ou sequelar os praticantes. Qualquer atleta profissional que você pegue em alguma entrevista à toa diz que tem que conviver com a dor durante toda a carreira. Tem uma série de estudos sobre isso, uma série de matérias em veículos de comunicação por aí, é só procurar. Esporte (de alto rendimento) mata. Devia ter alguém por aí pra lançar a campanha pela desprofissionalização dos esportes. Pelo menos algum debate ia acontecer.

Mas aí tudo bem, eu to chato né? Vamo ser mais normal, menos racional. O Brasil ganha lá, a gente fica feliz, se emociona, ouve lá o hino nacional. E lá no hino o cara manda (na verdade eu acho que nem chega a essa parte) “deitado eternamente em berço esplêndido...” E aí vem mais uma viagem...

Antes do sal tem o quê?

Até outro dia um assunto muito da moda era o pré-sal né? Pois então... Em minha limitada mente eu já achava meio estranho a idéia de que a galera ficava o tempo todo tirando o petróleo normalmente de lá do fundo do mar, do fundo da terra sem que nada acontecesse. Pois então, será que tirando ainda mais lá de baixo, do chamado pré-sal, retirando uma coisa que tá lá embaixo, lá no fundão mesmo, será que não vai mexer em nada da camada de cima? Eu só consigo imaginar que se a gente tira o que tá em baixo, o que ta em cima cai. Pelo menos até que se revogue a lei da gravidade... E será que ninguém pensa nisso ou somente estão excluindo essas coisas do debate, seguindo a velha lógica de “vamo ganhar a grana agora porque o futuro a Deus pertence né?”. Acham que isso é relativo a Deus né, não à gente? É, desse jeito acho que o berço esplêndido pode começar a dar uma balançada e, nesse caso, acho que não vai ser um balanço pra ninar ninguém não.

Caminhando sobre a teoria da relatividade

Aí eu tô lá de bobeira indo pra o trampo e vem o cara, no busu, e solta a ideia “eu não compartilho essa besteiras de facebook não, mas aquela do cara fazendo chocolate eu compartilho, aí sim.” Aí eu olho pra mim mesmo, por dentro, e penso: como é que o cara fazendo chocolate pode ser algo não passível de se enquadrar no rol das “besteiras do facebook”? É... Enfim, pode até ser, mas ficou aquela reflexão né? Cada um com seu cada qual. Ponto de vista é tudo. E ponto de vista gera relatividade.

Já disseram que eu era careta no trabalho. Assim como já me disseram que eu era muito doido. Quando eu não levo almoço pra o trabalho vou procurar um dos restaurantes perto lá do fórum. Aí pego e vou caminhando. Certo. Escolho um dos restaurantes e vou. Aí pego, atravesso a rua no local que me parece que torna a distância menor, torna o caminho mais rápido. Atravesso a rua inclusive na diagonal pra ganhar em deslocamento. E aí, na volta, quando vou refazer (ou desfazer, porque tô voltando né?) o percurso, olho pra o caminho a acabo fazendo outras escolhas que deixam, de acordo com o ponto de vista atual, o caminho mais curto. Mas que zorra, como é que o percurso sai diferente se os pontos são os mesmos? Pois é, a simples mudança de ponto de vista (no sentido mais físico possível, do ponto de onde se olha), muda a interpretação do melhor caminho. Porra então qual é o melhor caminho? É relativo.  

Relatividade, proximidade, religiões...

Seguindo a lógica da relatividade, inaugurada com louvor há tantos anos por meu irmão, eu tava lendo esses dias um livro que minha mãe, Dona Joanete Silva Pereira, me trouxe de sua viagem a Cuba (ela foi antes de mim, olha só a véa...) chamado Orisha Ayé, das autoras Natalia Bolívar Arostegui e Valantina Porras Potts. Legal o livro e tal, fala sobre as religiões afro-descendentes nas Américas Central e do Sul. E aí tem umas coisa muito interessantes. Salvo possíveis erros de interpretação minha pelo fato do livro ser em espanhol, na Venezuela, por exemplo, tem o que eu arriscaria chamar de uma religião, o chamado culto a María Líonza. Dentro desse culto, existe uma linhagem de entidades chamada “corte libertadora”. Tipo assim, tem a corte dos príncipes e princesas, tem a corte das meninas, a corte africana, a corte indígena, a corte médica, etc, que são agrupadas basicamente pela origem das entidades. E na corte libertadora, olha que coisa, os espíritos invocados são os dos heróis da libertação nacional e quem lidera ela é o grande Simon Bolivar. Porra, acho então que desde muito tempo a Venezuela já estava fadada a uma revolução bolivariana, né?

Mas a teoria da relatividade, a teoria das ligações que existem entre todas as coisas, aparece mesmo com força é quando as autoras falam das religiões no Suriname. Engraçado, até então eu sabia absolutamente nada sobre o Suriname. E diz que lá é o esquema mistura bolo doido, cristão, muçulmano, religiões indígenas... E aí, no meio de tudo tem a chamada Winti (parece que esse nome é relacionado mesmo ao verbete Wind, da língua inglesa) que, segundo o livro, tem semelhanças com o candomblé e, em um de seus panteões, ou linhagens, o chamado panteão Kumanti, o nome do Deus principal é, nada mais nada menos que Djadjaa. Putz, Djadjaa?! Qualquer relação com o reggae music, Bob Marley, Rastafarianismo, Jeovah, Biblia, Velho Testamento, Édson Gomes, etc, talvez não seja mera coincidência...  

Mas e Tulipa, minha gente? (novamente com aquele sotaque)

Velho, então, tinha a onda de Tulipa né? Após vários dias de reflexão me surgiu a resposta. E ela estava mais perto do que eu imaginava. A guitarrinha que tava lá me cutucando a tanto tempo vinha do septuagenário Caetano Veloso, na música Ele me deu um beijo na boca. Ouça aí o final da música de Tulipa <link tulipa> e depois o início da de Caetano <link caetano>. É o link, a referência, ou, poderia até dizer, a relatividade das coisas.  

Viva a relatividade!

E nessa levada aí, cada dia me parece mais viável o mito de origem da humanidade com Adão e Eva, de tanto que algumas coisas se aproximam. É Suriname com Jamaica na religião, é Cuba com Estados Unidos no esporte, hino nacional com pré sal, Tulipa com Caetano... A música é o exemplo mais fácil. Mas no final tá tudo colado, uma coisa puxa a outra. E assim sobrevive, após tantas comprovações científicas do IEPGPA (Instituto Eduardo Pereira Galindo de Pesquisas Absurdas – qualquer semelhana não é mera coincidência dr Eduardo Penna), a relatividade das coisas, na definição do filósofo de 8 anos de idade, Ernesto Galindo. E tendo em vista os absurdos por mim escritos aqui, acho até que essa teoria pode ser considerada a pedra fundamental desse famigerado e empoeirado blog.

É Cuba aí. Parece Olinda né? Relativo...

quinta-feira, 8 de março de 2007

Novo blog, novo visual, idéias não tão novas e autor quase manjado!

Ok, ok, me entreguei à derrota! Após mais de 3 anos de Caramujo News no blogger.com.br e após sumir pela quarta vez minha paradinha de comentários, me indignei e migrei. É triste, pois toda despedida é triste. Mas de repente pode ser sinal de um novo período na vida né? É! E se não é, acaba sendo!

Espero que a estadia aqui no blogspot.com seja mais traquila que a de lá. E espero não perder mais as poucas (porém importantíssimas!) palavras dos amigos que aqui comparecem.

Beijus e abraços, meus queridos! Cada um escolhe o seu!

Duda Borrão Galindo


P.S.: caracas, o apelido dado por Xande "Bactéria" Montenegro já entrou até no meu nome "altístico"!