quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

SOBRETUDO 2

Esquerda, preto, mulher, lei, judiciário e o caralho...

E essa porra de blog ainda existe?

A novidade (pra quem leu o ultimo post, de 2015 hahahahaha) é que deu vontade de citar nomes de pessoas que tem a ver com o trecho. Pode ser que eu tenha discutido com a pessoa sobre o tema, pode ser que a pessoa tenha dado o start da reflexão com alguma palavra, gesto ou ato, ou sei lá o que mais.

Escrita sem lastro [c/ Daniel Argolo]

Outro dia o camarada da faculdade de arquitetura, Band, disse que, de uma hora pra outra, eu tinha me tornado um legalista da porra. O contexto era de um debate político-jurídico, mas a reflexão ficou. Será que ainda consigo escrever (e pensar) de forma descompromissada, sem querer buscar alguma referência legitimadora? Não tô nem pensando em o que é melhor fazer (acho as referências de fundamental importância, sem dúvida, óbvio). Mas é só a pergunta de se eu ainda consigo fazer reflexões superficiais, baseando em minhas viagens mesmo, ou em algum bate papo de mesa de bar, e, ao final, me sentir bem com isso. Talvez a dificuldade que eu tenha desenvolvido disso é que tenha gerado, inclusive, o emboloramento desse espaço virtual. Como diria Arnaldo Batista, “será que eu vou virar bolor”?

Mas aí outro dia, diferente do outro dia ali de cima, Paula Barreto me falou que tinha reativado o blog dela. E me voltou à mente isso... Como diria Gilberto Eloy, “em pleno ano três mil” ainda vale essa onda?  Em 2004, quando comecei a escrever um blog pessoal, eu achava massa. E hoje? Fazendo curso de direito, após pós-graduações, trabalhando na justiça com a obrigação (ideal) de pensar na fundamentação de todos os atos... algo mudou minha cabeça? Sei lá, mas vou tentar ver o que sai, como nos velhos tempos.

Machismo e Cavalheirismo [c/ Lucas Bento]

Outro dia Lucas Bento, vulgo Zuchívis, postou um texto em uma rede social falando que só existia o cavalheirismo no contexto do machismo. Texto muito legal e reflexivo. E dessa reflexão desdobrou pra mim a viagem de como o cavalheirismo é usado como uma armadilha – temporária – da conquista desde os tempos remotos, utilizada pelos homens para enganar as mulheres. O cara chegava lá cheio de coisinhas, dando flores e etc, abrindo porta de carro, e, depois de conquistada (talvez casada), segue-se um possível período de desrespeito, agressão, menosprezo.

Daqui, do alto da distância histórica e do desconhecimento indireto pela falta de leitura a respeito (lembrando a lógica do blog, instintivo e sem base académico-estudiosa...), me parece que era assim que funcionava na sociedade ocidental desde os tempos do onça. Então me parece o cavalheirismo ser, para além de um desdobramento do machismo, como propunha o texto que li, na verdade, uma arma sua mesmo, parte integrante do complexo de subjugação feminino, mesmo parecendo às vezes "tão fofinho". Nessas horas fico até feliz de nunca ter sido muito de cavalheirismo (cavalheirismo não se confunde com solidariedade, atenção, diferença que vale desdobrar, solidariedade não envolve gênero e tal... Mas isso fica pra o próximo texto que, se tudo ocorrer bem, ano que vem sai né?).

Consumindo o Sexo [c/ Freud e o deputado que não sei o nome]

Seguindo a conexão mental, que nem sempre é aparentemente lógica e menos ainda linear, penso muito em como o sexo é abordado na sociedade. Como é apresentado, como é escondido, como é consumido. Lembro inclusive de como Freud fala em Mal Estar na Civilização sobre o beneficio que o sistema tem quando poda e redireciona o impulso-força sexual que, uma vez não utilizado para seu fim natural, ajuda a desenvolver outras áreas da chamada civilização. Ou seja, ele fala de como, no final das contas, há alguém (alguéns) se beneficiando dessa repressão sexual.

Aí, no meio da viagem mental, vem a notícia esse dias que um deputado federal apresentou uma proposta de lei pra inviabilizar o envio de conteúdo pornográfico pelas companhias de telefonia móvel. Sim, ele devia estar, por qualquer motivo, naquela vibe de “hashtag xatiado” com as coisas que se transmitem via zapzap (outrora conhecido como whatsapp). E a justificativa para a proposta era de que havia muita prostituição e que jovens estavam ficando viciados em masturbação. Então... que doidera né? Enquadrando o pensamento na legalidade, o consumo de pornografia por maiores de idade, feita por maiores de idade, não é conduta prevista no código penal. Da mesma forma, não é cominada nenhuma punição à prostituição. E a punheta/siririca então? Menos ainda né? Hahahahahahahaha! Mas como os tempos estão meio estranhos, essas questões de legalidade estão sendo um tanto relativizadas né?

Monomania [ao som do disco homônimo]

Daí me vem à cabeça também que é necessário para a sociedade desistir da monogamia para passar a ter uma leitura/ apresentação natural do sexo na sociedade. Sempre se ouve que os índios andavam nus, não escondiam seus órgãos sexuais, ofertavam suas mulheres aos visitantes (olha a porra do machismo aí, parece que existe entre os índios tb né?)... Mas queria focar agora era no sentimento de não exclusividade de relação sexual (deixo a reflexão de gênero nas comunidades indígenas pra quando eu me sentir um pouco mais habilitado pra falar, ou deixo aqui, melhor ainda, uma lacuna pra quem quiser preencher, pois até para meus métodos instintivos de reflexão existem limites).

Voltando... Ouvimos muito que os índios tinham uma relação diferente com o sexo, aparentemente desprovida da característica de exclusividade e aparentemente mais "natural", desprovida de tabus, onde as coisas aconteciam de forma mais não-escondidas. Mas pra isso ser aplicado em nossa realidade urbana contemporânea ocidental, para uma naturalização do sexo, além da relativização/exclusão da influência dos dogmas católicos, de pecado, etc, seria necessário também, me parece, o desapego à monogamia como condição quase indispensável de relacionamento, como hoje o é. Sim, ela (a monogamia) deve ter em grande parte origem na influência da igreja católica, mas parece que hoje já anda com suas pernas próprias, bem fortinhas por sinal. A naturalização, a destabuzação (neologismo útil) do sexo, tende a descortinar também vontades que viviam veladas, que escondíamos até de nós mesmos (e achávamos normal assim fazer), trazendo à tona atrações e te(n)sões que se fingia não existir. Então, passo um, é preciso separar o amor do sexo. Isso me parece bem básico né? (caberia aqui mais uma pá de horas pra falar sobre isso, mas fica pra próxima)

Óbvio que o princípio universal nesse âmbito do amor-sexo-relacionamentos é o de que cada um deve fazer o que cada um tem vontade. Fato. Mas refletir sobre nossos comportamentos traz à baila reproduções inconscientes que pairam por aí. Da mesma forma que, apesar de o capitalismo em seu modo de funcionamento que vemos por aí não ser o natural do ser humano e a gente continuar andando certinho nos caminhos que ele indica, os demais comportamentos todos merecem reflexão. E o que eu quis colocar era, em termos pseudo-jurídicos, que na dimensão afetiva, o padrão “contrato de adesão” – onde as cláusulas já vem todas prontinhas, é só assinar – deveria ser substituído por um acordo firmado entre as partes, de formato livre, a ser acertado de acordo com as peculiaridades de cada uns (a iniciar pela quantidade de partes signatárias do contrato).

Essa viagem toda porque acho que a postura do deputado não reflete só uma “loucura” dele. Reflete um modo de agir, se comportar e cobrar comportamentos dos outros que é reproduzido sem reflexão, porem é mega generalizado. Então simplesmente ridicularizar tal iniciativa parlamentar não parece contribuir de forma substancial com o coletivo. É preciso pensar em porque surgem coisas estranhas como essa e pensar em porque isso tem (sim, tem) tanto apoio de vários segmentos sociais. Mais adiante ainda reflito um cadinho sobre formas de repudiar propostas esdrúxulas...

Universidade Preta [c/ Lucas Rego e Bruno Amaral]

Falei algo sobre mulheres inda agora né? Seguirei viajando em grupos estigmatizados socialmente. Vamo pros pretos.

Aí a gente chega lá na UNEB, uma equipe legal da Capoeira Angola do Mestre Faísca, participando de um evento massa. E eu, que já fui estudante de Universidade Pública, olhei ao meu redor e chapei. Tive que conversar com o Professor Junta e o Trenel Touro. Rapaz, que coisa linda ver aquele local cheio de pretas e pretos! Era um tal de cabelos black, dreads e tranças de encher os olhos. A mudança nas universidades com a política de cotas é muito clara. E se tem alguém que até hoje não percebeu, a melhora é em duas vias. A Universidade ganha enormemente, trazendo para seus debates e seus estudos uma quantidade de temáticas que sequer eram pensadas. Aliás, eu diria que em realidade, pra a sociedade, pra o coletivo, quem tá ganhando mais é, claramente, a Universidade. A mudança na vida de uma pessoa ou uma família é importante. Mas a mudança na Universidade pode se tornar mudança na vida de muitas pessoas e famílias. E pra o meu deleite emocional, quando já me dava por satisfeito, vejo pragado na parede um cartaz de um evento que seria realizado dentro de alguns dias chamado "empodera preta". Porra, bicho, lacrou. Esse tipo de debate tá rolando agora e só é viável pelo efeito das cotas, geradora de demandas de dentro pra fora. É a universidade se questionando – porque agora ela é preta também –, não podendo aceitar a exclusão “de si mesma” das temáticas. O olhar da universidade está mudando, isso é nítido e é a grande melhora no âmbito acadêmico que a política de cotas gera.

E no outside da universidade pública? Nas privadas (sem trocadilho)? [c/ coleguinhas da faculdade Dom Pedro]

Hoje estou fazendo faculdade de novo, numa faculdade particular que, como a maioria das outras particulares, por distorção histórica do sistema de ensino, é o espaço que resta(va) para os que saíram do ensino público, na maioria das vezes pretos e pretas*. E eis que 13 anos após me formar pela primeira vez, vejo que as negras estão orgulhosas de seus cabelos volumosos e enrolados. É muito nítida a diferença. A maioria das garotas assume seus cabelos afrodescendentes, felizes. Isso não é pouco. A estética! Não menosprezar, fazendo favor. Fora da Universidade púbica, a estética afrodescendente vai bem, obrigado.

Na prega do blá blá blá [c/ coleguinhas da 10ª VT SSA]

Já que tava falando da faculdade, outra onda veio à cabeça... É a sensação que tenho sobre a maioria dos professores que, nos dias de hoje, ainda anotam no quadro e/ou pedem pra os alunos copiarem nos seus cadernos: perderam o trem da história. Sim, a sensação é essa. Parece que não tem com o que preencher a aula e/ou não estão preparados/interessados para/em investir em debates durante o processo de ensino/estudo. E porque seria isso?

Aí vem outra sensação/constatação: medo. Acho que tem uma pá de professor que tem medo do debate, medo de, nos dias de hoje, em que a informação está tão disponível, ser questionado/a e ficar em saia justa. Acham que com isso podem perder a moral perante a turma, sei lá. E porque será isso? Aí chego então ao ponto mais profundo: acho que falta é, ao final das contas, humildade para alguns queridos lecionadores. Humildade de, caso seja confrontado com alguma situação delicada, dizer o simples “sobre isso eu não sei, mas posso buscar saber”, “não conheço com profundidade esse autor”, “não faço ideia do que seja essa expressão/termo que você está usando”, etc. Quando tem algum que faz isso, meu grau de admiração cresce proporcionalmente à queda de quando sinto que o/a professor está tentando enrolar.

Cada cabeça é um mundo [c/ Valdumiro Galindo]

O que é a vida além de uma criação da mente? Ver um cara que sempre foi o sustentáculo da casa, professor universitário, que resolvia tudo pra todo mundo da família, que trazia a gente pra a reflexão sempre, pelas concordâncias (a maioria) e também pelas discordâncias, ver esse camarada tendo dificuldade pra lembrar uma palavra é meio foda. Tem horas que parece que gente nunca vai tá preparado pra as situações que a vida coloca. Mas a onda que pensei esses dias é que, mesmo nessa situação um pouco debilitada, quando conversamos, seu Galindo parece que tá de boa. Conversamos, rimos, ele ainda solta suas piadas impróprias para menores, ele quer se inteirar de como andam as coisas no mundo e em casa, os nossos gastos... Enfim, não parece muito incomodado ou excessivamente reflexivo sobre a situação dele, sua mudança de contexto. Não parece que a dificuldade para andar o esteja aperreando. O que, na atual situação, parece ótimo inclusive.

Entender a vida de outra forma, perceber e respeitar os ritmos, no meio de tanta pressa do mundo contemporâneo parece uma das lições mais importantes dessa nova realidade pessoal-familiar. Mas aí vem às vezes uma dúvida (que nesse caso, só pra manter a minha coerente incoerência, me parece até inútil): será que meu pai está com a noção exata de que, em janeiro de 2015 ele tava totalmente independente e de boa, saindo dirigindo, tomando suas cervejas de boa no Kimuqueka e no Frango do Moura, e hoje tem tantas restrições? Dos meses na UTI ele já disse que não lembra de nada. Será que ele percebe que em novembro de 2015 ele estava bem recuperado, plenamente independente, andando, tomando uma cervejinha de leve e debatendo os rumos do país de forma bem intensa? Sinceramente, acho que, se isso estivesse muito claro, a tendência era ele ficar muito triste. Mas não é o que vejo. Então vem a reflexão: o que é a vida se não uma grande invenção de nossa mente?

Algumas pessoas daquelas que chamamos, como diria o código civil antigo, de "loucos de todos os gêneros", aqueles que andam pelas ruas sem rumo, parecem, se não satisfeitos, ao menos tranquilos. Já viajei tanto nisso, acho que até aqui pelo blog mesmo também já refleti nessa onda. Será que a forma de compreensão do mundo deles traz uma leitura muito diferente da forma que eu tenho? Acho até provável. Então, vale mais ainda a máxima de que a felicidade é um estado de espírito, vem de dentro pra fora, no caso, de dentro da cabeça de cada um né?

Pequenos privilégios masculinos [c/ Camila Freitas]

Dia desses Camila postou em rede social algo como “homens, parem de torcer o pescoço para olhar a bunda das mulheres, isso é nojento”. Isso foi o estopim de uma série de reflexões sobre as regalias de ser homem.

Você observa homens andando sozinhos onde você nunca imaginaria uma mulher andar, sob pena de até deixar escapar um pensamento do tipo “porra, aí também ela se expôs demais”. Outro dia, indo pro trabalho de ônibus, o motorista conseguiu a proeza de sair da pista da direita, ir para a da esquerda, reduzir a velocidade, somente para “paquerar” uma mina na rua. Eu fiquei de cara. E mais de cara ainda que ninguém falou um “ah”. Que escroto, eu olhava para o lado pra ver se alguém tava pelo menos com cara de indignado e nada. Não tive força pra reagir sozinho. Não sei o que houve. Talvez até um medo da uma possível reação machista generalizada. Não sei o que houve comigo naqueles instantes. Não sei inclusive porque não deu tempo de pensar. E quando não dá tempo, em geral a gente fica na inércia.

Em mais uma oportunidade dessas de quase experimento sócio-antropológico, tava num elevador de edifício comercial. Aí o ascensorista tava fechando a porta e de repente, pã, meteu o dedo no botão de abrir a porta de novo. E aí eis que ele se esticou todo, quase caindo da cadeira para ver algo que, logo percebi, era uma mulher de vestido. Ou melhor, uma bunda de uma mulher de vestido. Porque ele não olhou nada além da bunda da mulher. Isso com o elevador quase cheio. Caceta, quando li o que Camila escreveu no face cheguei a quase achar exagerado. Mas o recado de Jah veio na sequencia e agora tudo parece agora mais factível.

A simples existência de dançarinas em programas dominicais de auditório, dançando coisas desconexas e sendo focalizadas em momentos nada a ver, é de uma absurdidade louca. O apresentador oriundo do perdidos na noite tem em seu programa o mesmo padrão que era tomado como normal há muitos anos atrás. Ver isso em programas como Bolinha, em mil novecentos e bolinha, já era doido. Mas ver que ainda hoje os programas seguem iguais é foda. O programa daquele outro apresentador que é dono da emissora e que diz que já foi camelô às vezes é defendido entre risos sob a alegação da senilidade do front-man. Mas velho, as posturas dele são muito bizarras e desrespeitosas. Isso sem falar num programa de canal fechado da globosat que tem como apresentador um jovem, ex-criança-gordinha, que se diverte indo a vários lugar do mundo, indo pra baladas e exercendo seu “charme” para interagir com mulheres, especialmente as afetadas pelo álcool. O mundo parece que tá mudando, mas aí a gente liga a tevê...

Social x Natural [c/ Karina Tegani, Paula Barreto]

E por falar em machismo, como é que a gente consegue saber em nosso comportamento o que é instintivo e o que é construção social? O modus operandi de cada um dentro da sociedade... Como podemos saber o que é instintivo do ser humano, já veio do inconsciente coletivo ou coisa que o valha, e o que foi influência da convivência, do contexto? Algumas atitudes típicas do machismo muitas vezes são relativizadas sob o argumento de que são “instintivas”. Marx dizia que as pessoas fazem a sua própria história, mas não livremente porque não escolhem as circunstâncias né?

E aí vem uma ideia doida: vamos fazer um experimento pra retirar toda a influência de circunstâncias socialmente construídas! Vamos separar uns serumaninhos e jogar eles na floresta pra ver como eles crescem, sem coisa pré-concebidas, pra descobrir o que é instintivo e o que é construção social. Eita! Mas aí não funciona porque eles não vão sobreviver, o ser humano sozinho não sobrevive, ele precisa de ajuda de outros e, por tabela, das construções coletivas-sociais...

É claro que nada disso minimiza a importância de pensar a respeito dessa diferenciação entre construção social e instinto natural, ou de construção social e vontade genuína individual, mas, ao final parece que isso ajuda mais no plano das ideias, pois não há que se chegar a uma conclusão fechada do que é cada coisa, se é social ou instintiva. E acho que vale a pena, talvez, focar na tentativa de perceber a construção social concreta e objetiva na qual estamos inseridos atualmente, onde se somam fatores naturais e sociais, e buscar dar a ela o caminho que achamos melhor.

Construindo (n)o coletivo [c/ Marcus Vergne]

Marcão, Marquinho, Marcote, etc,  ilustre coleguinha de trabalho na Justiça, já dizia que os servidores mais dedicados são, na prática, os mesmos que se dedicam de verdade à greve e às lutas coletivas. Sim, sim, certo como dois e dois são quatro.

A luta coletiva é praticada em todas as horas. O coletivo é toda a sociedade. O truque do sistema de colocar os trabalhadores uns contra os outros é muito ridículo e, pior, muito funcional. Já foi denunciado por inúmeros filósofos. Mas infelizmente, a maioria dos trabalhadores não teve tempo de ler, porque sai de casa muito cedo, volta muito tarde, o percurso é longo e tem que ser aproveitado para dormir um pouco.

Eu, pessoalmente, fui "expulso" de duas varas onde trabalhei no fórum trabalhista da barra funda, do TRT São Paulo e, para o afago no meu ego, em ambas fui chamado pra voltar. Da primeira fui solicitado a sair porque um juiz (que hoje por incrível que pareça considero um amigo, não vou colocar o nome dele aqui porque não sei se isso o incomodaria) achou que eu e outro colega baiano éramos elementos que causavam problemas dentro da secretaria, que incentivávamos o pessoal às greves(!) e à insubordinação. Eu não me atribuiria tantas honras, mas me sinto lisonjeado, porque se algum dia incentivei as pessoas à insubordinação no local de trabalho, certamente foi somente em busca de espaço para diálogo, em busca de que os colegas não se submetessem àquilo que não eram obrigados ou em busca de uma melhor situação de trabalho para os colegas, o que, ao final, é a melhora no serviço prestado pelo tribunal.

A segunda vez que fui convidado a me retirar de uma vara foi devido a uma juíza que, por desatenção dela em relação aos assuntos da vara em que trabalha, entendeu como desleixo um atraso meu. Detalhe que tudo tinha sido informado a ela mais de uma vez, com meses de antecedência e toda a equipe da unidade estava ciente e se organizou para me substituir. Mas enfim, a partir daí a busca dela por me remover do local de trabalho continuou até que, finalmente, tendo sido informada que eu solicitara uma mudança de cidade de prestação de serviço, encontrou, em tal fato, a justificativa perfeita para pedir minha saída daquela unidade. Ao final, soou como um mero capricho de chefia.

A justiça em geral tem um detalhe interessante que inclusive foi mencionado por um desembargador do TRT Bahia esses dias: quem gere uma vara, um tribunal, não tem formação para isso. São os magistrados, muito bem selecionados em relação à capacidade jurídica, entretanto, na maioria das vezes, sem nenhuma experiência e/ou pouca habilidade na gestão de pessoas ou organizações. E a isso, some-se, acréscimo meu, o fato de serem pessoas que, frente a grande parte da sociedade, são semi-deuses. As pessoas são tratadas como excelência desde que passam no concurso. Não é fácil pra elas desvincularem uma coisa da outra e lembrar que em muitas áreas do conhecimento elas são ignorantes, no sentido estrito do termo. E isso se percebe na forma de lidar com as equipes de secretarias de seus locais de trabalho. Existe uma dificuldade de entender que, daquelas rotinas, muitas vezes, um(a) cara que ganha de salário o que ele/ela ganha de auxílio moradia, uma pessoa que ganha um décimo do salário dele, sabe muito mais. O exercício da humildade, especialmente a intelectual, não é fácil pra ninguém, e pra essas e esses camaradas, tratados da forma que são (a maioria talvez desde o berço), abrir os ouvidos para sugestões em busca de melhores prestações jurisdicionais também não é fácil. Quando há algum tipo de movimentação em uma equipe de trabalho para alterações nos procedimentos, a reação natural da maioria dos juízes parece que é: tão querendo me desobedecer ou tão fazendo corpo mole, querem trabalhar menos. Falta perceber que muitas vezes podem ser sugestões que efetivem a tutela jurisdicional e, ao mesmo tempo, facilite a vida dos servidores e até dos juízes.

Mas, pra dar um fim nessa merda de papo chato de trabalho, retomando a minha exclusão das secretarias de varas do trabalho por onde passei e o consequente convite de retorno, tem um detalhe que me parece interessante... Nunca fui chamado a voltar para o antigo local de trabalho por uma reanálise da situação e uma conclusão que as situações poderiam ser resolvidas de forma diferente. Fui chamado a voltar, em ambas as situações, pelo motivo mais escroto: porque quem ficou na minha função não estava conseguindo dar conta do serviço com a mesma qualidade e/ou produtividade. Ou seja, o que vale são apenas os números, produtividade, metas. Servidor é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno, porra.

Comprovado então o que dizia Marcus Vergne, os mais dedicados ao trabalho são também os que mais se dedicam às lutas coletivas, afinal, são, no frigir dos ovos, os mesmo interesses que são defendidos, o bem coletivo da sociedade.
  
O tiro no pé demorou, mas chegou [c/ Karina Tegani, Daniel Abreu]

O agrupamento social bastante desagrupado que comumente é chamada de “esquerda” é agora vítima da estratégia que ela mesma usou por muito tempo: generalizar o “outro lado”.

Sim, empiricamente falando, com os dados da realidade concreta que me cerca, tenho sensação de que as pessoas que se interessam em entender a sociedade, em refletir, em ler, em geral tem tendências à chamada esquerda, seja na forma progressista, reformista, revolucionária, ou qualquer outra porra. Sempre citei uns três amigos que tenho, que são “de direta” e são esclarecidos, como exemplos da exceção que comprova a regra; pessoas com quem o debate, apesar das muitíssimas divergências, era profícuo.

E hoje o que acontece? A direita faz um trabalho de generalização muito escroto (pra mim é escroto né? agora que tá no meu, não é mais refresco) como se todos que são, politicamente, “de esquerda” fossem idiotas que não acordaram pra vida ainda, ou são escrotos mau caráter “que devem estar levando uma ponta”. Isso, no frigir dos ovos, é o que a esquerda passou a vida fazendo: “quem não é progressista só pode ser imbecil, ignorante, etc”. Assumo que já fiz bastante isso, algumas vezes em reflexões coletivas e muuuuuitas vezes em reflexões individuais.

Minha convicção de que a sociedade pode ser mais justa, que o Estado existe pra dar às pessoas situação melhor do que o que haveria na barbárie, como pensava Rousseau, continuam. Mas acho que há muitas lições a serem tiradas daí, dessa situação atual do país, onde a direita se inflama e grita com orgulho seu posicionamento. Lições de como tratar o outro lado, o lado que se opõe intelectualmente falando. De como devemos, por mais idiota que pareça a ideia, discutir e colocar, com argumentos, o que achamos ruim naquilo. A postura de excluir e apedrejar publicamente (viva as redes sociais!) causa certamente um acúmulo de rancor por aqueles que são “vítimas”, e esse ódio/rancor pode estar desaguando agora nesse momento histórico de intolerância e violência. O novo homem e a nova mulher, melhores, só surgirão com as novas práticas. E a forma de dialogar com os que pensam diferente é um passo fundamental.

A lenda do Estado de Direito [c/ PSTU, Daniel Abreu]

Chega a ser engraçado, no meio desse quiproquó todo, ver que partidos “de esquerda” se apegaram tanto à legalidade, ao estado de direito, respeito aos contratos (vide carta aos brasileiros) e agora percebem que o estado de direito só existe quando é interessante para alguéns existir. Procedimentos "inovadores" da operação lava jato, já referendados por uma corte judicial, não mais apenas por um juiz singular, processo de impedimento da presidenta encaminhado de forma bem questionável... Pois é senhores, apego ao estado de direito né? Pena que o "estado de direito" não tem apego a vocês... 

A relação que se faz por aí de que o pt deu muita força e independência à polícia federal, ministério público, etc, e agora seria o momento em que "a cobra que você criou quer te morder", acho bem tosca. Tosca porque se eles fizeram algo para manter/estimular a independência e autonomia desses órgãos/instituições não foi mais que a obrigação. E esses órgãos/instituições fazerem o papel deles de tentar acabar com procedimentos ilegais/ilícitos/criminosos, também não foi mais que a obrigação deles. Não vou entrar aqui nos meandros da conversa de seletividade punitiva (porque ia render muito), mas é tão básico a gente cobrar de alguém o que deveria ser feito naturalmente por esse alguém... O problema, na verdade o risível, só é, como eu disse antes, defender o “Estado de Direito” e depois ver que ele pode ser "flexibilizado" quando necessário (e, olha que coincidência, foi bem o seu caso!). Nesse particular, créditos maiores ao Judiciário do nosso país.

Estado de Direito não tem que ser flexibilizado porra nenhuma. Essa onda do próprio judiciário estar acima da lei e decidir quando se deve seguir o procedimento legal/padrão ou quando não deve, é bem absurda (no meu entender, por óbvio). Judiciário julga; legislativo legisla, cria as leis. Pronto. Cabô. Que tal botar isso em prática? Situação excepcional onde um poder realiza atividade típica do outro tem que ser exceção mesmo. Não dá pra o judiciário dizer: "ah, agora eu tô aqui julgando, exercendo minha atividade típica, mas não gostei muito da forma que tenho que julgar, vou alterar o procedimento previsto na lei". Aí a invasão de competência não tem a mínima lógica. É, mas iaí, qué qui vamo fazer? Entrar com uma ação judicial pra obrigar o judiciário a seguir o procedimento da lei. Certo... Ação... Judicial... Quem vai julgar isso mesmo? Ôpa, num é que é o próprio órgão infrator que vai se julgar?! Preciso nem falar do exemplo do julgamento da prisão com decisão de segundo grau né? A mim é tão somente (e inesperadamente) relativização constitucional. Mas feita por quem entende de lei né? Ah, então tá bom então...

Pausa Dramática para os comerciais [em ritmo de funk carioca]

Divisão de poderes / é coisa do passado / a onda agora é / tudo bagunçado.

E eu que há tempos atrás só conseguia ver o executivo saqueando as funções típicas dos outros poderes... O apocalipse está próximo. Arrependei-vos, já diziam alguns cristãos...

Futebola, esporte oval [c/ Karina Tegani]

Voltando pra as coisas bonitas do machismo, tem outra onda que me intriga: porque pra ser torcedor "de verdade" tem que ter raiva do rival? De onde vem essa lógica absurda?  Lembro que já disseram pra mim que eu não era “torcedor de verdade”, porque torcedor de verdade do Vitória tem que ter ódio do Bahia. Que doido isso... Vejo grandes amigos meus, inclusive com larga base intelectual, de mentes progressistas, e até uns bem aproximados às teorias socialistas/comunistas, entrando numas de falar "toma disgraça", "toma rebanho de puta"(que já envolve inclusive até umas questões de gênero aí também né?), "chupa não sei quenzinho"(hum, acho que rolou um fálico machismo aqui tb...)

Eu juro que comecei literalmente a escrever esses exemplos sem me atentar o quanto de machismo opressor, subjugador bizarro tinha nesses termos tão comuns dos "torcedores de verdade”. Fui escrevendo porque queria registrar o quanto eu achava bizarro o ódio que o futebol traz consigo, inclusive entre pessoas ditas esclarecidas e tcharã! Nesse exato momento percebo que tem umas treta significativamente ligadas à opressão de gênero que se clareiam nesse gramado. Talvez isso se conecte também com o pouco destaque que o futebol feminino tem no Brasil (não me sinto à vontade pra analisar o resto do mundo). Os conceitos de escrotidão machista estão tão absurdamente ligados a isso que o futebol permanece sendo "coisa de homem". 

Se é nessa pegada aí, na moral, não quero (e nem consigo) ser torcedor de verdade não. Nas vezes que cheguei a pensar em gritar alguma merda dessas, me veio à cabeça a quantidade de amigos que torcem pra o time rival. Não me sinto bem falando essas coisas que, sem subterfúgios eufemísticos, está, sim, sendo direcionado aos torcedores do outro time. Isso é fácil de comprovar em qualquer estádio. Os torcedores ficam se agredindo, mesmo que apenas verbalmente. Eles não ficam apenas direcionando seus impropérios aos jogadores do adversário ou ao ente imaterial e impessoal que seria o clube. Então esse tipo de postura, além de ser uma boa chamada para se chegar às vias de fato da pancadaria, só no falar você já tá mandando, desnecessariamente, um bocado de energia bizarra por aí.

E ainda tem outro lance que me deixa bem incomodado: quando vejo mulheres falando coisas desse tipo: chupa time tal, toma rebanho de não-sei-o-quê... Porra, parece que falta problematizar essas coisas... A mulher se apropriar do futebol é massa (quer dizer, nem tanto porque o futebol profissional é um lixo, se for só da prática mesmo acho ainda melhor, qualquer dia falo de novo da minha campanha pela desprofissionalização dos esportes...). Em todos os espaços a mulher tem que ter acesso, isso é bem óbvio né? Mas já que é pra se apropriar, vamo fazer de um jeito mais legal? Aquilo por exemplo que os torcedores do Atlético Mineiro chamam os torcedores do Cruzeiro de “Marias”. Não sei a origem da expressão, mas me parece difícil não ser algo machista. Ver mulheres se inserindo de forma mais ativa nas torcidas de futebol profissional, xingando jogadores e juízes da mesma forma, sem refletir/problematizar é bem hard.

O império da lei! [c/ a lei, ela própria]

Pra concluir esse emaranhado, fica a dica de diversão/dever de casa pra pessoas absolutamente desocupadas: ler o nosso Código Civil, especialmente a parte de Família e Sucessões e relatar depois suas sensações ao seu terapeuta. Eu pessoalmente me senti, em alguns momentos, como se estivesse nos anos 40. Localizar ali conceituações complexas não explicadas precisamente, pontos com previsões polêmicas, elementos pseudo-morais, regras machistas ou reacionárias comportamentalmente falando é uma tarefa bem tranquila/produtiva. Se a gente for pensar, só pra exemplificar, que lá na lei tá dizendo que os cônjuges tem obrigação de fidelidade, podemos facilmente debater até umas horas sobre o que é fidelidade. Aí você resolver pegar a definição senso comum de que fidelidade significa monogamia. Okay. Mas... e se as partes não quiserem assim? O Estado tem o direito de determinar a forma sob a qual as pessoas vão estabelecer suas relações conjugais? Rapaz, dá pra chapar até umas horas nessa porra dessa lei...  Só que aí a gente lembra que a gente estuda um bocado de coisa pra depois o Judiciário dizer que a gente não entendeu nada... É, então deixa essa lição de casa pra lá né? É, então tá então. Vamo tomar uma cerva na esquina que pode ser mais legal.

Fica aqui o abraço à guerreira/ao guerreiro de plantão, desocupado, que conseguiu ler todas essas viagens. Quem não tem terapia, escreve um blog né? Mais uma vez, como diria meu amigo Fabiano Viana, “falou man, valeu man, vá lá man” (mas aí ficou meio machista esse final né? Não podia ser falou woman, valeu woman...?).


E essa relíquia acima? Zé Falcón e Maurício Santil se remexeram nas tumbas! Hahahahahaha! Prova de que essa onda de escrever inúteis utilidades é coisa velha.




*Sobre a definição de pretos e pretas, lá em cima, vale papo posterior, mas, grosso modo, me filio a linha dos que acham importante a autodeclaração de todos os que guardem laços de origem e/ou pertencimento com comunidades afrodescendentes como preto/preta. Penso ser importante postura política para o fortalecimento da luta de pretos/pretas e também da luta dos trabalhadores não-pretos/não-pretas. Vale ler o livrinho que li esses dias, chamado O Mito da Democracia Racial, de Wilson Honório da Silva, coletânea de três textinhos dele, simples e esclarecedor sobre esse ponto, especialmente nos dois primeiros textos.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Sobretudo

1. Sobre o abandono e os seus momentos.

Lembro de um episódio da Família Dinossauro em que o avô da família ia ser jogado nos poços de piche. Era um costume antigo que as famílias de dinossauros faziam desde a época em que viviam errantes pelo mundo, por se tratar da hora ideal para se livrar do dinossauro mais velho e mais lento, que colocava em risco a comunidade nos seus deslocamentos de fuga de predadores. Fugindo da interessante questão de como eles reproduziam um costume sem perceberem que já não fazia mais sentido no contexto presente, tem uma viagem ali que é a hora do abandono. Isso era a hora certa do abandono pra eles. Abandonar o indivíduo (mesmo que amado e pertencente ao núcleo familiar).

Mas e aí, existe alguma hora ideal para um abandono? Aí vale também pensar que, nesse caso pré histórico, os habitantes da pangeia podiam ter um interesse coletivo em se livrar daquele elemento, naquele momento. Mas e para o elemento jogado à própria sorte (azar) dos poços de piche? Será que para ele, no momento mais fragilizado de sua existência, seria o momento ideal de ser abandonado?

2. Sobre a necessidade de esquecer.


3. Sobre a desconexão e sua desnecessidade.

Só pra manter a coerência de perceber em mim mesmo um bocado de incoerência, concordo 100% com Nietzsche. Só que nem sempre. Tem gente, por exemplo, que viaja que é necessário o momento desconexão total para viabilizar o fim de um relacionamento. Eu discordo disso, desde sempre. Mas tento respeitar, desde sempre, embora em alguns contextos pretéritos eu tenha falhado miseravelmente nessa tentativa.

4. Sobre o amor.

Esses dias perguntei pra uma amiga o que ela acreditava ser o amor. Ela me apresentou um conceito psicanalítico, pra depois me apresentar um conceito lindo que dizia no meio que “é aconchego, é frio na barriga”. Rapaz, acho que não precisa dizer mais nada. É porque o baguio é tudo mesmo. É o bom e o ruim junto, é tão amplo que é foda de dizer. Mas eu, apesar de proveniente da linhagem gilbertogilista, pacificadora e conciliadora, não belicista, filho-de-gandhyano, ainda tenho em meu bojo um bocado de caetanovelosisses também que me fazem querer dar pitaco sobre tudo, inclusive sobre o que eu não tenho embasamento e, em alguns (vários) momento, quando a caetanisse me ataca forte, acho que a minha verdade é um pouquinho mais verdadeira que a verdade do outro (embora eu nunca vá dizer isso assim, na cara do outro). Hahahahahahaha!

Eu não saberia definir o que é o amor pra mim. Mas pra não complicar muito, vou pensar só no amor daquele tipo que surge (em geral) em relação a (em geral) uma pessoa que (em geral) não é de sua família e que faz querer (em geral) estar com a pessoa em muitos momentos, tipo dividir a vida em algo semelhante ao que outrora foi formalizado sob a alcunha de casamento. Certo, forçei a barra só pra tentar delimitar o tema. É só sobre esse amor aí. Mas mesmo assim eu ainda não saberia definir o que é o amor em minha opinião/sentimento. Ainda assim, juntando as peças desse quebra-cabeças emocional, consigo visualizar algumas coisas que, pra mim, o amor não é. (Afinal é tipo música né? Acho mais fácil dizer porque não gosto de alguma música do que porque eu gosto.)

O amor não é força nem forçação. Não é imposição. Não é desrespeito. Não é retirar o objeto amado do mundo dele e transpô-lo para o seu mundo, ou para o mundo que você está querendo construir, pois as pessoas só existem com seus contextos. Em geral, após desconectadas, elas murcham como flores passadas ou, no mímino, deixam cair suas folhas mais bonitas. Entretanto, principalmente, o amor, pra mim, não tem nada, absolutamente nada, mas nada mesmo, a ver com ciúme.

Ciúme não está associado ao amor, não provem dele e nem está ligado naturalmente a ele. Não é prova de veracidade do amor zorra nenhuma e (relembrando, em minha opinião) diz até mais sobre aspectos mal resolvidos da pessoa de onde ele provem do que do comportamento do ser/objeto amado.

Objetivamente. Não tem segurança, a pessoa não tem um comportamento que você julga adequado? Parta a milhão mano véio, parta a milhão mana véia! Se aquilo ali não é o que seu coração quer, pé na estrada. “Pé quente, cabeça fria”, já dizia o mestre Passos Moreira. É mais fácil achar, no meio de mais de um bilhão de pessoas do mundo alguém que se encaixe no seu objetivo do que querer “dar uma remendada”, ou fazer um “puxadinho” em alguém que tem traços de comportamento/personalidade muito distantes do que você julga interessantes para um relacionamento. Afinal, no dizer de meu xará agora candango e gênio nas horas vagas, “as próprias pessoas são sempre as próprias pessoas”, o que, para além de um determinismo ou uma síndrome de Gabriela (eu nasci assim, e cresci assim e sou mesmo assim), empiricamente, é quase comprovação científica. As pessoas não conseguem mudar em um ritmo que seja satisfatório para os afoitos corações modernos.

Outra conclusão que cheguei empiricamente é que ciúme é veneno que se bebe junto. Se uma pessoa do relacionamento o inclui na pauta, a possibilidade de envenenamento coletivo é muito grande. Mesmo que a resposta não venha na mesma moeda (de desconfiança), virá (“impávido que nem Muhammad Ali”), de qualquer outra forma. Pode ser agressividade, falta de paciência, birras e, genericamente, em mudanças “negativas” de comportamento (que levam a pessoa a se afastar ainda mais do comportamento arquetípico-idealizado-desejado pelo outro).

Aí sempre tem aquela galera que alega o fator preponderância. Ter ciúme é o mais comum no mundo contemporâneo ocidental capitalista sudamericano (sim eu sei que o “certo” é sulamericano) sob a esfera de influência estadunidense né? Talvez. Talvez não, eu diria que, analisando o microuniverso à minha volta (novamente comprovações empíricas em universos de observação ridículos de pequenos), pode-se dizer que, de fato, é. Mas é por isso que a gente tem que achar normal e simplesmente aceitar? Acho que não.

5. Sobre retratos falados

Porra velho, outro dia recebia via zapzap uma mensagem com um retrato falado de um cara que supostamente estuprou uma médica em salvador. Supostamente não digo nem se o crime aconteceu ou não, tô falando que supostamente ele cometeu. Recebi aquela foto e fiquei pensando: o que me incomoda tanto nisso? Até que cheguei à conclusão bem simples: aquilo era um retrato falado, uma suposta imagem de uma pessoa que supostamente cometeu um crime...

Calma, calma, não estou de forma nenhuma menosprezando o crime analisado, acho até que talvez seja o pior dos crimes possíveis de serem cometidos, não vou aqui discorrer sobre os porquês do meu achamento, pois levaria um tempinho. Só pensei na reação possível àquela imagem. É um caso de altíssima divulgação na cidade de Salvador. Também não vou aprofundar no fato de ter sido um crime contra uma médica, integrante de uma parcela da sociedade que talvez seja mais acompanhada pelos veículos de comunicação. Mas o que me passou na cabeça mesmo foi aquela cena tétrica e bárbara de uma sexta feira à noite, com o povo tomando umas cachaças num boteco qualquer de um bairro periférico (a localização não supõe maior ignorância das pessoas que ali estão, foco aqui apenas na menor cobertura do policiamento ostensivo, algo tão infelizmente necessário na nossa sociedade). Aí vem um cara passando na rua e algum bebum alerta: olha ali o estuprador. Aí como diria um amigo meu, gestor público e dublê de filósofo, o IVDM (índice vai dar merda) atinge valores altíssimos!

Aí um outro amigo meu, muito ilustrado, sabido, médico, não alienado pelos estudos específicos, não-reacionário, progressista (sim, cabe na mesma pessoa tais características), disse: mas retrato falado é utilizado em tantos países, há tanto tempo... E pensei: a escravidão também era a regra em tempos pretéritos, em vários países e por muito tempo né? É. Mas seguir por esse caminho é esparro, vai dar muito pano pra manga. Vou voltar pra o que eu queria falar, pra não bagunçar demais a sequência lógica.

6. Sobre os efeitos de exposição midiática

Falei de um exemplo extremo de IVDM, de violência física direta, de um possível linchamento literal em praça pública. Mas borbulham por aí exemplos também de violência/linchamento moral/psicológica(o) em casos semelhantes, de julgamentos em “tribunais televisivos” ou coisas do gênero, dos quais nunca se consegue absolvição, reparação ou retratação.

Mas qual é o efeito prático da ampla divulgação de um retrato falado? Eu gostaria de saber, estatisticamente. “No sentimento”, (com diria meu professor de física do 3º ano quando ia lançar uma pegunta à sala) eu diria que não deve ser uma arma muito eficaz. Divulgação entre os agentes do Estado, polícia e tal, deve valer a pena. Mas pra a população em geral, será que gera efeito prático mesmo? Enfim, quem souber me diga fazendo favor. Se possível com dados de fontes minimamente confiáveis (ah, isso exclui, por óbvio a revista olhe, ops quer dizer, veja).

Ah, mas são poucos os casos, que dá merda, a maioria não rola esses efeitos colaterais, alguém sempre dirá. Sim, pode ser. Mas se tiver de haver uma injustiça desse tipo (julgamento prévio de um inocente) para que sejam detidos cinquenta criminosos posteriormente comprovados, já acho totalmente questionável a utilização do método. Não é à toa que o direito penal é diferente. Ele, teoricamente, só age quando os outros não dão conta, é tipo uma última arma da sociedade contra aquele elemento que não está se comportando da maneira esperada. Não dá pra banalizar a aplicação de penas ali previstas e menos ainda um fictício enquadramento de pessoas em situações ali descritas, sem antes ter a convicção.

7. Sobre a desistência

Dizem que desistir é mais fácil. Tem horas que vejo tanta coisa que discordo no mundo (e com indicativos que elas não estão diminuindo, muito pelo contrário) que penso: vou desistir, me entregar! Vou viver a vida no esquemão mesmo, me enquadrar 100%. Fazer a minha porra, focar no sucesso profissional-financeiro e foda-se geral. Deixar de pensar no mundo e nessa idiotice de busca por deixar algo de interessante de contribuição para essa zorra chamada sociedade. Afinal, eu não sei nem como fazer isso, por onde começar, que caminho seguir... Mas aí meu pensamento acorda e diz: ei, você ainda tem muito pra fazer porra! Afinal, para que servem as utopias?!

A mesma coisa em relacionamentos emocionais enquadrados naquele tipo descrito lá em cima. Tem gente que diz que o caminho mais fácil é desistir. Dizem que é o caminho dos covardes. Uma garota com quem convivi (e passei bons momentos), me falou uma vez que a evolução humana se dá mais rápida e intensa quando é à dois, pois a complexidade das questões a serem resolvidas nos proporcionam avanços maiores e em menos tempo. Até acredito. Mas hoje não estamos mais juntos. Talvez eu ainda não esteja preparado. Ou talvez minha capacidade limitada não seja compatível com tal intensidade de mudanças. Ou talvez não seja esse meu caminho ideal traçado por Jah. Ou talvez... Sei lá.

8. Sobre a negação e a reação desproporcional

Já que falei de relacionamentos, sigamos para dentro deles, pra alguns fenômenos muito comuns...

Reagir com agressividade a alguma atitude/ação externa, por exemplo é algo relativamente normal, ainda mais com pessoas com quem se tem intimidade. A intimidade é uma merda, já dizia a sabedoria popular. Por estar tão perto tem horas que a gente perde um pouco da autocensura. E acaba naquela merda que às vezes, por uma besteira, a gente deixa de dar bom dia pra quem mora com a gente, mas no busão sempre lembra de cumprimentar simpaticamente o cobrador. A desconstrução dessas atitudes é fundamental e, perceber o equivoco, é o primeiro passo, Assumi-lo perante a outra pessoa e pedir desculpas é o segundo. (Putz, tá bem auto ajuda isso aqui, que bosta...)

Sim, mas a reação desproporcional tem várias raízes, por óbvio. Tem coisas que interferem de forma tão brutal nos mais sedimentados pilares de nossas convicções que não há forma de reagir que não seja descer do muro (ou das tamancas) e quebrar o pau. Existem também as situações em que o fator externo é extremamente pequeno (o que não tira o direito à indignação) mas a reação é transtornada e desproporcional. Tipo, como diriam os comentaristas de futebol, “uso de força desproporcional”. Isso também me parece muito foda, tanto se a ação foi sobre um ponto pessoal e subjetivamente mais chato, quanto se foi pela repetição reiteradas vezes. Falo isso no auge da certeza que posso perceber tal reação em diversas merdas que já fiz aí pelo mundo. Acho que nessa hora (no mundo perfeito, das utopias, que um dia alcançarei) cabe a aplicação do princípio da insignificância em prol do bem maior que é o interesse coletivo.

Mas tem umas coisas que geram reações brutais que são ainda mais complexas... Durante a vida a gente “véve, véve” e não vê tudo. Mas outras coisas a gente vê algumas vezes. E juntando os cacos de vivências vividas e ouvidas, dá pra perceber que existe uma situação que é muito escrota. É quando a gente tem uma reação brutal pelo fato de alguém (geralmente bem próximo) utilizar-se de procedimentos bizarros que, se a gente prestar bem atenção, mas muita atenção mesmo, são coisas que a gente faria também, tá ligado? Tipo assim, aquela atitude revela um “defeito” igualzinho ao que a gente tem. E aquilo gera uma reação de negação agressiva daquela situação ao ponto de não perceber que aquele “absurdo” é justamente a mesma merda que vira e mexe a gente faz. (Okay, tempo para pensar...)

Da mesma forma me parece ser ato de negação acusar em excesso alguém de algum procedimento, ou realizar julgamentos pesados por determinadas condutas (realizadas ou apenas suspeitadas). Tipo assim, você vive a falar para o seu(sua) cônjuge: você deve é tá com um(a) amante; quando a gente terminar você vai arrumar outro(a) em uma semana... É claro que existe milhões de fatores que podem concorrer para essa preocupação ocupar lugar de tanto destaque na mente de alguém. Não excluo nunca fatores históricos e vivências, e nem possíveis questões biológicas-genéticas-sei-lá-o-quê. Mas o fator que me veio mais recentemente à reflexão foi: será que esse tipo de atitude não pode ser também uma forma de negar algo que está dentro da própria pessoa? De jogar no outro uma carga que se carrega e que é deveras pesada? Tipo uma forma de, no fundo, esconder algum assunto mal resolvido, desejado ou até praticado pela pessoa? Acho que tô viajando demais já né? Depois que eu fizer minha terceira graduação, que será em psicologia, falo mais a respeito...

9. Sobre redes sociais

Mundo moderno tem é arte... Falar em relacionamento sem falar em redes sociais nos dias de hoje é quase um absurdo. Os relacionamentos atuais têm de ter no contrato firmado inicialmente regras de uso das redes, limites a serem respeitados, aplicativos que podem ou não serem utilizados... Tem até relacionamento que começa pela internet e termina por causa da internet.

E aquela pergunta já vive fixa em minha cabeça: pra que porra serve uma rede social? Ah, mas você tem facebook, usava orkut, já teve fotolog, fez uma conta no instagram esses dias e esse porra desse blog que você alimentou outrora frequentemente, no seu momento “in” também era uma ferramenta semelhante... Sim, sim. E, pra você ver, até hoje, exceção ao blog, continuo sem visualizar uma função prática para tais ferramentas. Mas é isso mesmo, faz parte, tem um bocado de coisa sem muito sentido prático que a gente faz, tipo torcer pra time de futebol né? Mas tem uma coisa que me espanta na relação que algumas pessoas têm com as redes sociais...

Tipo assim, a sociedade atual (será que antes era diferente?) é uma porra onde muitas vezes as pessoas valorizam mais a imagem que se tem perante o coletivo do que a satisfação pessoal. [Se bem que acabo de falar uma merda das grandes né, porque a satisfação pessoal pode ser gerada a partir de qualquer tipo de coisa, inclusive da imagem que se tem (ou se acredita ter) perante os demais.]

Mas enfim, acho que as redes sociais amplificaram demais essa tendência, que em minha humilde opinião é um equívoco de foco, essa viagem de “imagem é tudo, sede não é nada”. Porra, vai se fuder se a porra de seu perfil não tem a quantidade de foto que o(a) outro(a) quer! Ah, mas que absurdo aquele(a) rapaz(rapariga) curtir foto sua! Que inaceitável você curtir uma postagem de alguma outra pessoa sem antes ter curtido a postagem de seu(sua) companheiro(a)-convivente-esposo(a). E aquele(a) piriguete(o) que eu não gosto, porque você ainda não deletou ele(a) de sua rede de amigos?... Man, e onde fica a importância da vida real? Que porra é essa?! Não tô dizendo que essas coisas de mundo virtual devem ser ignoradas não, mas acho que é importante mantermos a hierarquia clara entre a vida real e a virtual para não gerarmos relacionamentos virtualmente bem sucedidos e realmente fracassados. Até porque na rede é beeeemm mais fácil ser feliz do que na vida real né?

10. Sobre as prioridades manterem seu status de prioridades

Focar na vida real, nos problemas reais/não virtuais. E manter sempre a capacidade de empatia para nunca (quando possível, óbvio) deixar na mão uma pessoa que está realmente precisando. Isso já basta para manter as prioridades como prioridades.

11. Sobre as histórias e o eterno retorno

“Dizia Chico Futa:
Pode mesmo a gente saber como é um caso começou, aonde começou, porquê, pra quê, quem? Sabe mesmo o que estava se passar no coração da pessoa que faz, que procura, desfaz ou estraga as conversas, as macas? Ou tudo que passa na vida não pode-se-lhe agarrar no princípio, quando chega nesse princípio vê afinal esse mesmo princípio era também o fim doutro princípio e então, se a gente segue assim, para trás ou para a frente, vê que não pode se partir o fio da vida, mesmo que está podre nalgum lado, ele sempre se emenda noutro sítio, cresce, desvia, foge, avança, curva, pára, esconde, aparece... E digo isso, tenho minha razão. As pessoas falam, as gentes que estão nas conversas, que sofrem os casos e as macas contam, e logo ali, ali mesmo, nessa hora em que passa qualquer confusão, cada qual fala a sua verdade e se continuam a falar e discutir, a verdade começa a dar fruta, no fim é mesmo uma quitanda de verdades e uma quinda de mentiras, que a mentira é já uma hora da verdade ou o contrário mesmo.
[...]
O fio da vida que mostra o quê, o como das conversas, mesmo que está podre não parte. Puxando-lhe, emendando-lhe, sempre a gente encontra um princípio num sítio qualquer, mesmo que esse princípio é o fim de outro princípio. Os pensamentos, na cabeça das pessoas, têm ainda de começar em qualquer parte, qualquer dia, qualquer caso. Só o que precisa é procurar saber.”




José Luandino Vieira, nesse momento, muito conectado com o espírito e a forma de funcionamento desse embolorado blog...