(Candeia)
O contexto da música de Candeia citada acima, imagino eu, devia ser aquele da chegada com força da chamada “Black Music”. O disco de onde ouço essa música foi lançado originalmente em 1977. Creio que seja normal rolar uma certa reação da galera que curtia o som tipicamente brasileiro contra essa “invasão”. Ainda mais se tratando da chegada de um som que podia fazer frente ao samba no gosto da comunidade negra, porque era um som dançante, basicamente de negros estadunidenses, cheio de suingue...
Eu sou africano?Bruno Angola, irmão da capoeira me falou algum tempo atrás do trabalho de Capoeira Angola que ele tá mantendo em Coimbra e os questionamentos dos africanos que ele conheceu por lá. Ele disse que os africanos, mesmo os angolanos, não questionam muito a denominação da capoeira como Angola não, mas viajam na onda da louvação ao continente negro. Para eles parece estranho que os brasileiros – especialmente no caso da capoeira ao que me parece – se apeguem tanto à valorização da África e dos africanos.
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A gente sabe pouca da história dos países africanos e parece que eles também sabem pouco da nossa história. O que não é nada demais, diga-se de passagem. Acho que faz mais sentido até a gente aqui no Brasil buscar saber da história de lá do que eles saberem a história das nossas áreas brasilianas. Creio que, antropologicamente, é uma ligação ancestral do Brasil que foi deliberadamente apagada.
Pergunte a qualquer amigo seu sobre seu nome, a origem do sobrenome e tal... Se ele tiver um nome de origem européia é muito provável que ele saiba dizer pelo menos de que país vem alguns de seus antepassados. Têm alguns até que podem saber até de que região do país vem ou alguma relação “nobre” com o nome da família. Falo isso pelo meu próprio exemplo. Sei muito bem dizer de onde vem o sobrenome Galindo, já até ouvi algumas variações da história da origem. Mas vem cá, será que eu, nêgo desse jeito, sou descendente de espanhol só?
Africano de onde mermo?Rui Barbosa, que alguns dizem por aí ter sido o maior jurista do Brasil, por certo que também fez algumas cagadas na vida. E quem não as faz, não é mesmo? A que poderíamos citar aqui foi a ideia de queimar (literalmente) os arquivos oficiais relativos ao tráfico dos escravos. Se os escravizados já eram rebatizados na hora de embarcar e chegava aqui para serem vendidos com um nome qualquer cristão (José dos Santos, João de Jesus, por exemplo), tocar fogo no que havia de registros sobre a origem dos africanos que vieram para o Brasil terminou por tornar muito mais difícil a missão de remontar a história dos afro-descendentes brasileiros. E olha que, dizem, na época o nosso grande baiano alegou que seria uma forma de “apagar a mancha da escravidão” que estava impregnada na sociedade. Será que ele pensou isso mesmo?
Você sabe com quem você está falando?!A lógica do “você sabe com quem você está falando” eu acho que tem um pouco a ver com a situação do pensamento generalizado aqui na terra brasílis e, talvez, ajude a compreender um pouco mais a política de valorização da África, tão convictamente praticada pelos ativistas negros no país.
Se você pensar que o “você sabe com quem você está falando” (em minha observação empírica) muitas vezes recai numa política de “filiação nobre”, faz sentido pensar em uma necessidade de valorizar os africanos e a afro-descendência (afinal, a origem nobre, em geral, é identificada com representantes euro-descendentes, que ocupam, ainda, os papeis de maior destaque na sociedade). A valorização de outras origens que não a européia, que não a dos que já estão muito bem reconhecidos, é um ponto importante. É algo como mostrar que os ancestrais dos chamados
negros no Brasil também tiveram sua importância. É como tentar descolar a imagem da população negra dos clichês de pobre, derrotado, serviçal, etc. É mostrar que, mesmo contra a vontade de alguns euro-descendentes, os africanos são guerreiros, capazes, inteligentes e não-acomodados. Assim como seus descendentes.
InteligênciaFelipe Beira Mar, camarada angoleiro do Vale das Pedrinhas passou uma ideia interessante dia desses. Ele narrou uma situação em que estavam sendo debatidos os conceitos de inteligência em uma aula da qual ele fazia parte quando surgiu, via colocação da professora estadunidense, uma conceito colhido em algumas regiões da África que dava conta de que a inteligência seria “a capacidade que um individuo tem de viver de forma harmoniosa em um grupo”. Fiquei chapado com isso.
Graças ao conceito que me foi apresentado nessa situação - também - reforcei minha ideia que um dos caras mais inteligentes que eu conheço chama-se Eduardo Penna. Por isso, tudo que ele fala eu presto atenção. Conversando com Penna outro dia, ele disse da onda de ser melhor racismo velado do que o racismo aberto por existir, pelo menos, a “vergonha” de se dizer racista. É a ideia da impossibilidade de criação de argumentos para defender o racismo. Okay, boa colocação. No entanto, tem uma coisinha que, pra ilustrar, eu compararia com o período da ditadura em relação às esquerdas brasileiras - embora essa definição do que é esquerda, ainda mais no Brasil, seja bem complexa.
Conexão Ditadura x RacismoQuando existia a ditadura, o objetivo era claro: derrubar o governo militar, acabar com aquele regime de exceção. E aí ficava até mais fácil pra o cara se dizer “de esquerda”. O cara que era contra o que estava estabelecido, já podia lançar logo (ou lançavam pra cima dele) o rótulo: de esquerda. É mais ou menos o mesmo caso do racismo velado e do racismo assumido. Quando é assumido, dá pra ver, é uma coisa muito tangível, o objetivo tá ali, derrubar aquelas barreiras, aquelas leis racistas (como no caso dos EUA ou da África do Sul, por exemplo). Quando é velado, disfarçado, é mais complexo de definir medidas de combate.
África do Sul é um exemplo. Durante o apartheid o objetivo era nítido: mudança das normas legais que sustentavam o regime. E depois? Depois que derrubou o que era oficializado, aí vem a parte mais difícil: retirar das mentes aquela herança de preconceito. A relação com a ditadura é bem essa: derrubamos a ditadura! Uhu! Beleza, mas e aí? Qual é o objetivo agora? A gente luta por que causas mesmo? E aí aquela massa que tava mais ou menos conectada se divide, num processo até normal de aprofundamento das questões que, agora, se tornam mais específicas. Mas tem também um bocado de gente fica perdido, sem saber “o que era mesmo que a gente queria?”.
O primo do meu tio é mestiço, racismo não existe, comigo não tem isso* * trecho de uma música dos Racionais MC’s chamada “Qual mentira vou acreditar?”
Aí dia desses vejo uma entrevista com Demetrio Magnoli. Poxa, o cara que era o autor de livros de minha época de colégio... Rapaz, mas que decepção... Era na mão desse cara que o colégio me lançava? Dentre uma série de argumento que ele utilizou para dizer que não existe racismo no Brasil e que as cotas são uma tentativa de racialização da sociedade, ele fez uma comparação com os representantes do povo no congresso boliviano, se bem me lembro. Ele criticava os deputados que antes se diziam trabalhadores de mina e agora se auto-proclamam índios – passando a se vestirem com roupas típicas inclusive. E dizia que era isso que o movimento negro e seus simpatizantes estavam fazendo aqui no Brasil. Hum, okay...
Velho, na minha leitura, se o cara tá optando por assumir uma identidade indígena na Bolívia, ducaralho! Se o cara tá deixando de se dizer “mestiço” no Brasil e tá se dizendo “negro”, difudê! A identidade é uma construção mesmo. O fato de antes os caras se identificarem como trabalhadores de mina e agora se auto-proclamarem índios pra mim é lindo! É um posicionamento político. Se antes eu era um moreninho e hoje eu encho a boca pra dizer que sou negro, uma série de valores vão mudando dessa forma. Você ignorar isso é ignorar que houve (e ainda há) um desprestígio (pra usar de um eufemismo) da cultura de origem afro e indígena em relação à cultura que foi (foi? será que não é mais não?) considerada “superior”, mais “evoluída”, que seria a cultura do colonizador europeu. E – como bem lembrou Kabengele Munanga numa entrevista recente na revista Fórum – o esquema é tão escroto com a cultura indígena e afro-descendente que até outras influências, como a cultura asiática por exemplo, que chegaram bem depois, são valorizadas e celebradas por aí. E seus representantes já têm seu espaço. Aí você vê, com umas culturas tão sem moral, quem é que poderia querer encontrar sua identidade no índio ou no negro? Tem que ter gente pra chagar e falar “eu sou índio mermo e é bala ser assim” ou “eu sou negro mermo e boto pra fuder, a cultura dos meus antepassados é ducaralho, não deve nada pra ninguém”.
Identidade e AutonomiaÉ interessante ver também que esse caminho de construção da identidade deve ser trilhado com autonomia: escolher o que é melhor para si, o que mais se conecta com suas necessidades, seus interesses; quais são os traços – dentre tantos que se misturam na formação de cada ser humano – que a pessoa quer reforçar, quer valorizar mais, quais ela acha que precisam ser valorizados. Isso é construir a identidade a partir de uma realidade concreta, real, não de uma suposição – bonita na teoria mas que paira lá pela altura do distante espaço sideral – de que “somos todos iguais”.
Morar em Salvador e ser rockeiro, por exemplo, é construção de uma identidade, é optar por uma cultura que não é a dominante mas é uma cultura com a qual acontece a identificação. É uma escolha de valores a serem reforçados, uma escolha de modos de interagir com o mundo. Ter pele e olhos claros e se definir como negro é fazer uma escolha identitária. Infelizmente tem uma galera que é levada pela maré mesmo, deixa que outros façam as escolhas por eles ou que até busca vantagens, quaisquer que sejam, nessas escolhas. Mas como diz o povo,“camarão que dorme a onda leva”.
Fim de papoNo final das contas somos todos brasileiros mesmo. Nem norte-americanos (estadunidenses), nem africanos. Mas a valorização da origem africana, a louvação à Mãe África vem de um contexto que, sem muito esforço, quem vive pode compreender. Não devemos esquecer nossas origens, política, sociológica ou antropologicamente escolhidas! Negritude é uma escolha de valorização de uma origem, não é um fenótipo de ter cabelo assim ou nariz assado. É escolha mesmo.
E eu? Eu, como diria Gerônimo...
Eu sou negão!Imanouamiri imanoua miri roraima
Imanoua miri roraima
Ê iquei é macuchi muita onda
E aí chegaram os negros
Com toda a sua cultura
Com toda sua história
Com toda tradição
Com toda sua religião a ser mutilada,
A ser maltratada pelos heróis anônimos da história
Estamos aqui e sobrevivemos
No dum dum dum
O negão vai cantando assim
Pega a rua Chile
Desce a ladeira
Vai da praça Castro Alves
À praça da Sé
Fazendo seu debochi chi
Transando o corpo com seu ti ti ti ti
Fazendo seu debochi chi chi chi
E o negão assumiu o microfone
E na beira da multidão
Em cima do caminhão, ele fala:
Alô rapaziada do bloco
Esse é o nosso som
A nossa levada
A nossa cultura
Segura!
Eu sou negão
Eu sou negão
Meu coração é a liberdade
É a liberdade
Sou do Curuzu ilê
Sou do Curuzu
Igualdade na cor essa é a minha verdade
Igualdade na cor essa é a minha verdade
Anori capoi herem hê
Anori cauamé herem hê
Anori tuxaua herem hê
É cara cara nã he rem hê
É harem caraiva herem hê
É cara cara nã
Ê iquei é macuchi muita onda
(letra de Gerônimo retirada do encarte do disco de Mariella Santiago)

P.S.: Não sei porque toda vez que eu escrevo eu viajo que ainda tinha muita coisa pra colocar no texto... O fim de papo nunca é o fim mesmo... Mas sei que a net não é o melhor lugar pra expor textos longos. Acho que um dia vou escrever um livro de umas mil páginas. hehehehehe