A Bahia é foda, só tem brown, já gostava de dizer meu amigo Eugeniusz Kowalski. Talvez quem não é baiano tenha uma certa dificuldade de compreender o sentido da expressão, não sei se ela é usada nacionalmente. Aliás, não sei nem se ela sai dos limites de Salvador, pra ser mais preciso. Em alguns momentos já tive uma compreensão do vocábulo como uma expressão um tanto preconceituosa/racista. E essa interpretação provém de uma tradução direta do inglês né? Brown: marrom em inglês. E marrom é cor de quem mesmo? Pra quem não compreende a utilização dessa expressão no linguajar baianês, pode achar que estou naquela de complexo de perseguição. Mas quem é de Salvador, se pensar um pouco na utilização majoritária da expressão, certamente perceberá como ela recai na maioria das vezes sobre coisas típicas do chamado “povão”, ou seja, majoritariamente sobre os afro-descendentes, sobre atitudes/atividades majoritariamente exercidas ou ligadas aos afro-descendentes. Marrom é a cor da pele dos negros né? Pode crer. Mas aí, depois de algum tempo, me vieram outras possibilidades de referências pra a origem no nosso querido “brown”.
Viagem 2, bem louca (só pra organizar as ideias, a viagem 1 era a da tradução do marrom): Eu não conheci, realmente não é de meu tempo, mas acho que geral já ouviu falar do Mobral. Mobral era a sigla para Movimento Brasileiro pela Alfabetização. Então... Eram, em sua maioria, adultos em busca de letramento, parte também daquela instituição indeterminada, porém rejeitada, chamada povo. Fiquei pensando que essa galera que recorreu ao Mobral pra conseguir sua alfabetização pode ter, pelo pouco que conheço do funcionamento da sociedade brasileira, recebido um tratamento um tanto preconceituoso. Tipo assim, o cara que era meia boca nos estudos, pode acabado sofrendo piadinhas do tipo: esse aí veio do Mobral! E aí “Mobral”, na pronúncia é igual a “mó brau”, que, por sua vez, é quase igual a uma contração natural da forma real de se falar “maior brown”. E aí o maior, em alguns momentos pode se sair e pronto! Tá feita a nova palavra!
Viagem 3 (talvez a menos absurda): teve uma entrevista de Mano Brown, que vi já faz bastante tempo, na qual ele falava sobre a origem de seu nome artístico. Ele disse que na época em que ele andava fazendo barulho e cantarolando no fundo dos ônibus, mandando umas batidas que deviam incomodar alguns passageiros, lá pelo fim dos anos 70, quem estava em destaque no mundo era um camarada chamado James Brown. E disse que qualquer um (se bem me lembro acho até que ele falou “qualquer negro”) que chegasse zoando, fazendo um som e tal, era logo chamado de James Brown. O cara era a referência de som negro, de batida da moda, e o nome dele acabava virando quase um adjetivo pra uma galera. O cara era (e ainda é, na real) “o cara” daquela época. Aí me veio logo uma imagem de Carlinhos Brown batucando no fundo de um busu a caminho do hoje famoso bairro do Candeal e sendo chamado de James Brown também. Achei bem factível a situação, assim como essa origem do termo “brown” (ou “brau”, o seu abrasileiramento).
Rap, língua do povo
Falar de Mano Brown é falar de rap Brasil. E aí, do rap, me vem uma conexão com o vídeo A Sombra de um Delírio Verde < link do video > que peguei via indicação do Camarada André Caroço, colega de faculdade, menino esperto que tá ligado no que acontece pelo mundo e sabe transformar isso em letras de músicas muito boas, como fazia quando a sua banda, Meio Metro, estava em atividade mais intensa. Pois então, o vídeo mostra uma realidade muito escrota a que estão submetidas comunidades indígenas no Brasil, algo muito delicado e que merece bastante atenção. Mas o que me fez lembrar do vídeo agora, foi ver lá, no meio do vídeo, o rap acontecendo, sendo feito por descendentes indígenas. E me chamou a atenção, mais uma vez, pra o significado do rap pra as comunidades marginalizadas da sociedade. É muito foda.
Calabar
Lembro da época em que estagiei na Rádio Comunitária a Voz do Calabar. Quem conhece Salvador deve saber onde fica o Calabar, um pequeno bairro pobre sobrevivendo espremido no meio de uma área nobre, entre os bairros turísticos/carnavalescos da Barra e Ondina. Então... Foi chegando lá que comecei a me dar conta do alcance do rap e da importância dele pra comunidades menos abastadas e mais marginalizadas. Nesse estágio lá na rádio eu fiz de tudo. Tentei organizar a grade de programação, trabalhava na produção de todos os programas – tentando não mudar muito os caminhos que já existiam com a rádio comandada por membros da comunidade –, operava os equipamentos quando necessário e até locução cheguei a fazer algumas vezes. E, como diria Renato Russo, me diz: pra mim o que ficou? < link da música > O que mais me marcou foi o programa de rap que era feito pelos camaradas Ratinho e Juninho. Tinha ainda um outro camarada do Alto da Pombas (um bairro conexo) que aparecia de vez em quando também e me impressionava pela clareza das colocações, pena que não lembro o nome dele mais. É, tudo bem não lembrar, nessa brincadeira essa experiência na rádio durou uns seis meses eu acho, e aconteceu há uns bons dez anos...
Mas pra não perder o fio da meada, foi nesse programa que passei a ouvir com freqüência grupos como SNJ, 509-E, Racionais, RZO e mais alguns clássicos do Rap nacional. E foi nessa época que vi o impacto que aquele som tinha pra aquela galera. Se pra mim, menino criado em playground à base de ovomaltino, aquela coisa já fazia sentido, pra eles aquilo era a realidade 100%, tá ligado? Era muito forte mesmo. E uma coisa importante da programação da rádio lá era que só tocava rap nacional. Porque, assim, musicalmente os gringos são referência, indicam tendências sonoras, mostram qualidade e, assim como aqui, também tem o groove afro-descendente, beleza, pá. Mas quando falamos de mensagem, o que se destaca hoje no estrangeiro são músicas de conteúdo um tanto quanto questionável. Não sou contra os caras falarem as porra dele lá não, que pegam mulher, que tem dinheiro, que fazem e acontecem... Vá lá, cada um na sua, tem que ter espaço pra eles falarem disso. Mas assim... Os caras deslumbraram né? Só falam disso. Ou melhor, o que chega aqui, 90% é nessa pegada. Bem que podia ter outras coisas se destacando também né? Ainda bem que na Radio Comunitária A Voz do Calabar a influência era 100% brazuca, num rolava gangstar/playboy estadunidense...
Rapagode, som do povo
Um dia minha irmã, Juliana Pereira Galindo, chegando do trabalho me disse: ó aqui ó, toma aí pra você. Era um DVD promocional de uma banda que eu facilmente classificaria de pagode baiano, ou suingueira. E aí, como eu já tinha ouvido alguns rumores sobre a tendência que esse grupo tinha de mandar umas mensagens legais, resolvi ver dacoléra. Ou melhor, ouvir pra ver dacoléra deles. E não é que a parada era boa mesmo? Aquela banda simbolizou pra mim a conexão dos sons que fazem a cabeça da população nos subúrbios e áreas marginalizadas da sociedade soteropolitana: o rap e a pagodão baiano. É uma interessante tendência de conectar o som contagiante do pagode baiano com as letras mais preocupadas socialmente do rap. Fiquei chapado com o DVD. Caracas, os caras brocaram muito nessa conexão musical aí. É papito, o grupo Fantasmão foi algo que me surpreendeu pra caralho nessa época e me deixou muito feliz. E pra completar, quando baixei um disco deles na net, olha o que tava lá, os caras faziam uma cover de Chico Science & Nação Zumbi. Aí fudeu, fiquei fã.
Lei da atração e lei da percepção
Muitas vezes na época que eu estagiava no Calabar me perguntaram “que porra eu tava fazendo naquelas áreas?!” Tipo assim, um lugar perigoso e tals... Mas rapaz, assim... Eu acredito pra cacete na lei da atração. Eu não fico viajando que vai dar merda nenhuma, em nenhum lugar que eu vou. Claro que isso não quer dizer andar de bobeira, até porque os velhos capoeiristas, como o Mestre Doutor João Pequeno, já ensinavam: o capoeirista conhece o amor, mas sabe que a maldade existe... Ou seja, a gente tem que andar ligado. Allright! Mas, no meu entender, quanto mais a gente foca os pensamentos em coisas boas, melhor é nosso caminho. É a lei da atração...
Aí um dia eu tava andando pela orla de Salvador, de carro, um tempo atrás. Olhei pra o lado e vi uma senhora tentando estacionar o carro. Nada demais, mas a mente vai fazendo conexões e acabei me lembrando de um dia em que ajudei meu primo Danilo Rebelo Alves a estacionar o carro dele, num evento qualquer de família, dando uma de flanelinha. E aí, continuando as conexões mentais, veio em minha cabeça que, se do lado da família de minha mãe Danilo é meu primo mais próximo, pelo lado da família de meu pai acho que Éder Galindo do Santos é o primo com quem mais estabeleci proximidade. Pois então, tô bem nesse ponto mental quando olho para o lado de novo e olha quem está ali? Éder, correndo com seu cachorro. Caceta, tinha muito tempo que não me batia com ele. E bem na hora que lembrei dele, ele aparece. Eu sou daquelas pessoas meio encucadas e que fica viajando que coincidências, normalmente, não são só coincidências...
Existe a lei da atração, o que pra mim é fato, disse ainda agora, né? É. O que a gente pensa, o que a gente mentaliza, funciona tipo ímã. É claro que não é só pensar em um milhão de reais que a grana aparece, mas acredito que, assim como alguns muitos cientistas já admitem tranquilamente que a mente é importante pra derrotar doenças, ou seja, o que a gente pensa gera reflexos físicos do lado de dentro do corpo, o que a gente pensa também influencia o mundo em volta. E aí acho que se encaixa perfeitamente a lei da atração. O que a gente mentaliza chega até a gente. E aquela onda do efeito bumerangue também rola, ter ódio, raiva, pensamentos escrotos, só atrai essas porra pra cima de nós mesmos.
Então, lei da atração comprovada (ao menos pra mim hehehehe), ok. Só que no momento em que encontrei Éder correndo com o cachorrinho dele, viajei que além da lei da atração, existe também a lei da percepção. Tem umas coisas que a gente sente sem precisar necessariamente ter visto, ouvido, passado a mão, sentido cheiro ou o gosto. Ou, no mínimo, sem ter a consciência de ter percebido isso. Acho que às vezes a gente simplesmente sente a coisa antes de saber mesmo que ela tá ali, sacou dacolé? Tipo um sentido a mais que a gente tem, mas que, ao não usar muito, a gente vai deixando ele meio empoeirado e enferrujado, atrofiando o coitado. Assim como os outros. Se a gente vai se acostumando a só usar a visão, a gente vai aos poucos perdendo a capacidade de perceber o que não é visto pelos olhos. Mas que a lei da percepção – com seus captadores internos no corpo humano – existe, isso, pra mim, agora, é fato também.
Flanelas pra lá!
Eu falei que lembrei de meu primo Éder porque lembrei de meu primo Danilo e, de Danilo lembrei porque fiz uma flanelagem pra ele. Fiquei lá ajudando ele a estacionar o carro, fazendo o papel de guardador de carros, o famoso flanelinha. Pois é, aí eu vejo esses dias um bocado de gente compartilhando naquela rede social, a famosa “caralivro”, uma matéria sobre um suposto projeto de lei que versava sobre os flanelinhas. < link do post no facebook > E o que é que falava ali?
“Em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, uma medida que deveria ser copiada e adotada pelo Brasil inteiro: começou a vigorar a lei que proíbe a atuação dos flanelinhas por entenderem que a rua é um espaço público que não pode ser privatizado. Os suspeitos de serem guardadores de carros, pegos em flagrante pela polícia, deverão ser encaminhados para projetos sociais da prefeitura. A intenção é encaminhar a pessoa para um setor de busca de emprego. Caso o suspeito se recuse, ele deverá responder pelo crime de exploração indevida da atividade nas vias públicas. Eu voto a favor.”
Assim... Pra mim isso parece somente a ideia de mandar pra longe o “lixo social” pra que não nos encha o saco. Eu já fui muito importunado por guardadores de carro, já me irritei, já discuti e os caralho com alguns deles. Sei que existe um problema ainda maior em relação às mulheres, que sofrem mais pressão ainda desses “donos da rua”. Certo, não to negando nada disso. Mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. O texto fala que “Os suspeitos de serem guardadores de carros, pegos em flagrante pela polícia, deverão ser encaminhados para projetos sociais da prefeitura”. Rapaz, vamo tomar cuidado com esse papo aí. A gente tá cansado de saber que o Estado (latu senso) não dá conta de asilos suficientes, não dá conta de hospitais psiquiátricos suficientes, não dá conta de leitos suficientes em hospitais, não dá conta de abrigos pra mulheres que tenham sofrido violência domestica, não dá conta de políticas de inclusão dessas mulheres violentadas para que elas possam se tornar independentes, assim com não dá conta de políticas pra reinserir ex-detentos no mercado de trabalhado. Certo, então a prefeitura, o patinho feito da administração, o mais sem recursos, vai ter projetos sociais que vão dar conta de toda a parcela da população que já necessitava de inclusão/acompanhamento social e ainda vai dar conta de mais essa nova demanda? Rapaz... E o texto ainda diz que “A intenção é encaminhar a pessoa para um setor de busca de emprego”. O texto já diz que é a “intenção”. Se no projeto já tá apresentado assim, só na intenção, imagine a prática como vai ser...
Tem algumas coisas que acho que devem ficar mais claras. A necessidade do bróder que tá lá flanelando não vai ser eliminada com o encaminhamento dele para um setor de busca de emprego. Primeiro porque é bem fácil de não se encontrado emprego por não haver mesmo. Segundo porque o camarada provavelmente precisará de alguma preparação para ser inserido no mercado de trabalho, o que não vai acontecer num passe de mágica. E é muito fácil uma parte da população, a que tem carro, os classe média pra cima, pegar a falar: beleza, tá resolvido o problema. Manda eles pra lá pra longe. Tá resolvido o seu problema né pai? Porque o do flanelinha (ou ex flanelinha) certamente que não tá. Tá bem longe disso na real. Parece que mais uma vez essa suposta lei serviria somente como mais uma ferramenta pra legitimar repressão policial. É a velha história sobre a qual alguns camaradas inteligentes por aí, como o broder Foucault, já falaram: é colocar as classes subalternizadas umas contra as outras, para que não possam perceber que o verdadeiro motivo de suas lástimas está um bocadinho mais em cima na pirâmide social.
Em resumo eu poderia ir atrás pra ver se esse projeto existe mesmo, como é que ele está escrito, se existe uma realidade menos “vamos nos livrar desses entulhos humanos que ficam atrapalhando que nós da classe média cheguemos a nossos shows, bares e teatros”. Poderia discutir também a questão da "apropriação do espaço público", que acontece em uma série de outras situações e nada se fala a respeito, mas como os "apropriadores" nesse caso são só flanelinhas, é mais fácil de bater de frente. Mas a viagem aqui não é de chegar a conclusões não. Pelo menos não nesse momento. A ideia, acho, agora é só lembrar que é bom exercitar a reflexão um pouco, antes de sair apoiando qualquer causa por aí.
Pra não dizer que não falei das flores*
< link da música >
Tem horas que eu até esqueço mas eu me formei em Comunicação Social – Publicidade e Propaganda, na lendária Universidade Católica do Salvador. E pra não dizer que não falo de propaganda e pra não dizer que não falei das flores, lembrei dia dessas de uma campanha da uma cervejaria que dizia: redondo é rir da vida. Velho, eu vivo escaldando a propaganda e sua (dis)função social mas esse eu acho que é um exemplo do contrário, de uma propaganda bem legal, que tem uma mensagem bem positiva. Ah, tá vendendo uma droga que fode uma porrada de gente no alcoolismo, Certo, é uma merda isso. Mas dentro do espectro do mundo da propaganda, e do mundo das propagandas de bebida, acho que essa foi bala. Porra, as situações apresentadas na campanha são daquelas em que o cara que estava envolvido poderia facilmente, como se diz por aí, “dá pra ruim”. Porque são contextos meio escrotos, em que o cara é colocado num aparente “vexame social” e, ao invés de se irritar, o cara simplesmente se diverte e dá risada. Putz, muito legal. Estímulo à tranqüilidade. < link de um vídeo da campanha >
E daí, com a lei da atração sancionada, funcionando, tudo lindo pra terminar (o texto e começar o ano)em alto astral! Êa Candeia! Axé! E viva o ano novo! Ano novo pra o blog e ano novo pra mim também (é meu aniversário)! Uhu! Como dizia Emicida, que, só porque já “mordeu cachorro por um prato de comida” é, em pessoa, mais um milagre do povo, “vale a pena estar vivo, nem que seja pra dizer que não vale a pena estar vivo, mas vale a pena estar vivo”. < link da música do camarada >
legenda da foto: sol e água fresca pra todos já!
*Essa versão do link é ao vivo. É uma versão que já tinha um lugar na minha memória afetiva por haver existido um dia um vinil lá em casa com ela, de onde eu ficava voltando a agulha cuidadosamente pra poder anotar a letra toda. Tempos depois a versão ganhou outra referência afetiva por ter sido de onde o camarada Chiba D e seu grupo, o Opanijé < opanijé no myspace >, referência do Rap baiano, buscaram o trecho que foi sampleado na intro de mais uma ótima música deles.
P.S.: Como dito anteriormente, ano novo, renovação. Fim da linha pra todas as postagens antigas. Essa era a ideia, mas tem coisa que o blogspot tá dando pau na hora de deletar. Acho que ele tá a fim de curtir um pouco mais. Então tá bom, fica esse resquício aí.
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